Corridas por aplicativo sobem 45% em 2025 e entram no radar do Procon-SP
Alta acumulada de 45,38% no ano, segundo o IPCA, expõe uso recorrente do preço dinâmico e gera queixas de consumidores
César Tizo - janeiro 7, 2026
O custo do transporte por aplicativo no Brasil avançou de forma expressiva em 2025 e passou a pesar de maneira mais evidente no orçamento dos consumidores. Relatos de corridas curtas com valores muito acima do padrão habitual se multiplicaram ao longo do ano, enquanto o preço dinâmico, antes associado a horários de pico ou eventos específicos, passou a ser percebido como uma prática quase permanente em grandes cidades. O cenário levou o Procon-SP a notificar plataformas como Uber e 99, exigindo explicações formais sobre os critérios adotados para a variação das tarifas.
A notificação, emitida em 12 de dezembro, cobra maior transparência das empresas. O órgão de defesa do consumidor solicita informações detalhadas sobre eventuais reajustes, suas justificativas e os fundamentos técnicos utilizados na definição dos preços. Segundo o Procon-SP, a ausência de clareza sobre o funcionamento do preço dinâmico pode caracterizar prática abusiva, em desacordo com o Código de Defesa do Consumidor.
Os números oficiais corroboram a percepção dos usuários. Dados do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), calculado pelo IBGE, mostram que o transporte por aplicativo acumulou alta de 45,38% em 2025, liderando o ranking dos serviços que mais encareceram no país. O impacto, no entanto, variou conforme a região: na Região Metropolitana de Porto Alegre, o aumento chegou a 74,76%, enquanto São Paulo registrou alta de 35,81% e Belo Horizonte, de 30,98%. A prévia da inflação de dezembro ainda apontou um acréscimo adicional de 9%, sinalizando continuidade da pressão sobre os preços.
Analistas atribuem a escalada a uma combinação de fatores estruturais. A redução da oferta de motoristas, pressionada pelo aumento dos custos operacionais — como combustíveis, manutenção e seguros —, somada à demanda elevada, cria um ambiente propício ao encarecimento das corridas. Os algoritmos de precificação, que ajustam valores em tempo real com base em variáveis como horário, clima e concentração de usuários, reforçam essa dinâmica. Embora a lógica econômica seja defendida pelas plataformas, consumidores criticam a falta de critérios públicos e facilmente compreensíveis.
A percepção de baixa transparência também é compartilhada pelos motoristas. Pesquisa inédita do GigU, em parceria com a Jangada Consultoria de Comunicação, revela que 58,2% dos condutores consideram que as plataformas não são claras quanto a critérios e regras, enquanto 36,7% afirmam entender apenas parte das informações disponibilizadas. Apenas 5,1% dizem perceber total transparência no funcionamento dos aplicativos.
Essa falta de clareza afeta diretamente o planejamento e a renda dos profissionais. “Quando critérios de bloqueio ou comissões não são explicados de forma objetiva, o motorista tem dificuldade para planejar suas jornadas e otimizar ganhos”, afirma Luiz Gustavo Neves, CEO e cofundador da GigU. Para ele, mesmo quando há comunicação por parte das plataformas, ela nem sempre é suficiente para orientar decisões do dia a dia.
Para os consumidores, o impacto é imediato. Usuários frequentes e ocasionais enfrentam gastos mais elevados e precisam planejar melhor o uso do serviço. Em cidades como São Paulo, a cobrança dinâmica em horários antes considerados de baixa demanda já se incorporou à rotina urbana.
As plataformas, por sua vez, respondem por meio da Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Amobitec), que sustenta que fatores como distância, tempo de deslocamento e nível de demanda no momento da solicitação influenciam diretamente o preço final. A explicação, no entanto, não encerra o debate. O Procon-SP segue analisando o tema e pode abrir investigações ou aplicar sanções caso identifique práticas abusivas.
Enquanto isso, especialistas recomendam que consumidores registrem cobranças consideradas irregulares, guardem comprovantes e comparem tarifas entre diferentes aplicativos. O avanço dos preços também reforça a busca por alternativas de mobilidade, como planos corporativos, aplicativos de carona e maior integração com o transporte público.
A alta das tarifas evidencia uma tensão estrutural no setor de mobilidade urbana, marcada pelo equilíbrio delicado entre oferta limitada de motoristas, demanda crescente e algoritmos de precificação dinâmica. Em 2026, o tema tende a ganhar ainda mais relevância, exigindo soluções que conciliem rentabilidade das plataformas, eficiência operacional e proteção ao consumidor.
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