Trocar fabricação local por apenas montagem de kits automotivos custaria 69 mil empregos no Brasil, alerta Anfavea
Entidade estima perdas bilionárias, risco à cadeia automotiva e pede fim do benefício para kits importados já em janeiro
César Tizo - janeiro 19, 2026
A ampliação do incentivo à importação de kits automotivos desmontados nos regimes CKD (Completely Knocked Down) e SKD (Semi Knocked Down) pode trazer impactos profundos e negativos para a indústria automotiva brasileira. Estudo divulgado pela Anfavea aponta que uma eventual substituição da produção completa de veículos no país pela simples montagem de kits importados pode resultar na eliminação de até 69 mil empregos diretos, o equivalente a 75% da força de trabalho atual do setor, além de afetar cerca de 227 mil postos indiretos ao longo de toda a cadeia automotiva.
O levantamento também estima perdas econômicas expressivas. Apenas no segmento de autopeças, o prejuízo pode chegar a R$ 103 bilhões, enquanto a arrecadação tributária teria uma redução aproximada de R$ 26 bilhões em um único ano. No comércio exterior, as exportações de veículos poderiam recuar R$ 42 bilhões, comprometendo a balança comercial brasileira.
Após seis meses de vigência do regime que instituiu cotas com Imposto de Importação zerado para kits de veículos elétricos e híbridos desmontados, a Anfavea defende o encerramento do benefício em 31 de janeiro, conforme sinalização prévia dos órgãos federais de comércio exterior. Para a entidade, a eventual prorrogação do incentivo representa um risco estrutural à indústria nacional.
Kits CKD e SKD chegam atualmente ao país isentos do imposto de importação
Segundo o presidente da Anfavea, Igor Calvet, embora as montadoras consigam se adaptar a um modelo produtivo simplificado, o impacto negativo se espalharia por toda a cadeia. “As empresas conseguiriam se adaptar adotando um modelo simplificado de produção, mas o problema seria relevante para a cadeia como um todo: perderiam as empresas fornecedoras, os trabalhadores, a engenharia nacional, a academia e o poder público. Ou seja, a sociedade brasileira inteira”, afirma.
O estudo destaca que a ampliação da entrada de veículos eletrificados importados sem agregação de valor local tende a pressionar fabricantes já instalados no país, reduzir investimentos em desenvolvimento tecnológico e enfraquecer a competitividade industrial brasileira, especialmente em um momento marcado pela transição tecnológica e pelos esforços de reindustrialização.
Calvet ressalta que o problema não está no uso pontual dos modelos CKD e SKD, mas na manutenção de incentivos sem contrapartidas industriais. “SKD e CKD não são processos prejudiciais em si. Muitas montadoras iniciaram suas operações no Brasil por esses modelos, recolhendo os devidos impostos e estruturando, a partir disso, sua produção local. O problema é manter incentivos para a simples montagem em alto volume sem exigência de aporte de valor nacional, o que ameaça a sobrevivência de uma indústria de alta complexidade e a geração de empregos qualificados”, explica.
O presidente da entidade também reforça que a indústria instalada no Brasil está preparada para competir, desde que haja equilíbrio regulatório. “A Anfavea e suas associadas não temem a concorrência. O setor recebeu, ao longo das últimas décadas, diversas marcas internacionais dispostas a investir e competir no Brasil. O que se busca é um ambiente competitivo justo, com regras iguais para todos”, afirma.
Nos últimos anos, a indústria automotiva brasileira anunciou investimentos recordes em pesquisa, desenvolvimento e inovação, impulsionados por programas como Inovar-Auto, Rota 2030 e, mais recentemente, o Mover. Apenas no ciclo atual, os aportes já somam mais de R$ 190 bilhões, considerando investimentos das fabricantes de veículos e de autopeças.
Para a Anfavea, prolongar incentivos à importação de kits desmontados sob o argumento de atrair investimentos pode, na prática, estimular a desindustrialização e deteriorar as condições de emprego no país. “É fundamental valorizar quem investe de forma plena no Brasil, inclusive as novas empresas que chegam com projetos industriais completos”, conclui Igor Calvet.
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