Indústria automotiva vive ruptura histórica e inaugura nova fase
Eletrificação pragmática, avanço das marcas chinesas e novas regras regulatórias redefinem o setor no Brasil e no mundo
César Tizo - janeiro 20, 2026
A indústria automotiva brasileira vive uma transformação estrutural sem precedentes, com a China consolidando-se como protagonista e a eletrificação deixando de ser nicho para se tornar padrão de mercado. É o que aponta estudo da Bright Consulting apresentado nesta terça-feira (20) durante coletiva de imprensa da Abeifa, traçando um panorama detalhado das mudanças que moldarão o setor até 2030.
Segundo a análise “Mercado Automotivo Brasileiro e Global – Transformação Estrutural e Perspectivas 2026-2028”, conduzida por Murilo Briganti, diretor de operações da Bright, as montadoras chinesas devem alcançar 18% de participação no mercado brasileiro em 2030, praticamente dobrando os cerca de 10% registrados em 2025.
O avanço tende a ocorrer principalmente às custas das marcas europeias e americanas, enquanto fabricantes do Japão e Coreia do Sul devem manter resiliência, com aproximadamente 23% de participação, apoiados na oferta de híbridos e em elevados índices de fidelidade do consumidor. Segundo as projeções, em 2030 as marcas norte-americanas responderão por 18% do mercado brasileiro, enquanto as europeias concentrarão cerca de 42%.
A virada elétrica
O estudo projeta que apenas 27,8% dos veículos vendidos no Brasil em 2030 utilizarão exclusivamente combustão – uma queda vertiginosa em relação aos 89% de 2025. Os micro-híbridos e híbridos plenos devem dominar o mercado com 51,4% de participação, enquanto os híbridos plug-ins e veículos de autonomia estendida (REEV) chegarão a 12,8%, e os elétricos puros alcançarão 8%.
A explosão da eletrificação será viabilizada pela queda dramática no custo das baterias. O estudo indica que o preço do quilowatt-hora despencou de US$ 165 para US$ 100 nos últimos cinco anos, com a paridade de custos entre veículos elétricos e a combustão já sendo atingida em meados de 2026 nos segmentos compactos. As baterias representam 40% do custo total de um veículo elétrico.
Híbridos vão ganhar protagonismo no Brasil até o fim da década
O Brasil dos 2,8 milhões
A Bright Consulting projeta crescimento moderado do mercado brasileiro, que deve alcançar 2,78 milhões de unidades em 2030 e somente ultrapassar a marca de 3 milhões após 2032. O ritmo será determinado pela melhora gradual do Índice de Confiança do Consumidor e pela expansão da classe ABC+.
Um dado que chama atenção é a dependência estrutural das vendas diretas, que devem sustentar metade dos emplacamentos ao longo de toda a década, reduzindo a volatilidade mas limitando o potencial de aceleração do varejo tradicional.
2025: lições de um mercado em mutação
O balanço de 2025 revelou um mercado que cresceu 2,6% no total, mas com o varejo recuando 0,5%. Apenas as vendas diretas, que saltaram 5,9%, garantiram o saldo positivo. O crédito caro fez esse canal alcançar 47% de participação, alta de 1,5 ponto percentual.
A chamada “SUVização” se aprofundou: os utilitários esportivos saltaram de 41,3% para 46,2% do mix (+4,9 pontos), canibalizando hatchbacks (-2,6 pontos) e sedãs (-2 pontos). Paralelamente, os veículos eletrificados explodiram de 174 mil para 279 mil unidades, enquanto as marcas chinesas consolidaram 9,5% de share total, figurando no Top 10.
A guilhotina tributária
Um dos pontos mais críticos do estudo é o impacto do Imposto de Importação sobre veículos eletrificados. Carros totalmente importados (CBU) terão aumento de alíquota de 25-30% para 35% até julho de 2026, representando até 8% de alta no preço final dos veículos elétricos puros.
A regulamentação, contudo, abre uma janela de oportunidade para montagem local (CKD). Veículos com 55% de conteúdo nacional terão imposto de apenas 16% sobre os kits importados a partir de janeiro de 2027, reduzindo o impacto tributário e viabilizando custos competitivos.
Existe uma cota de US$ 463 milhões sem Imposto de Importação que beneficiou temporariamente a instalação de fábricas CKD e SKD, com as montadoras chinesas pleiteando extensão desse benefício junto ao governo.
As cinco variáveis decisivas
O estudo identifica cinco fatores que definirão o futuro do setor:
1. Custo das baterias: Com queda de 80% na última década e novas químicas como LFP e sódio reduzindo dependência de metais caros, este é o fator crítico para competitividade.
2. Escala local versus importação: Volume mínimo de 50 a 100 mil unidades anuais é necessário para viabilizar fábrica completa, tornando a montagem no Brasil mandatória para sobrevivência de longo prazo.
3. Programa Mover e incentivos: R$ 19 bilhões em créditos para descarbonização e Pesquisa e Desenvolvimento (P&D), além do IPI Verde baseado em eficiência energética, impulsionam a transição tecnológica.
4. Velocidade de reação das tradicionais: Montadoras estabelecidas aceleram lançamentos de híbridos flex e buscam parcerias com chinesas, usando a capilaridade de suas redes como defesa.
5. Adoção pelo consumidor: Superar estigmas de qualidade, garantir valor de revenda e expandir infraestrutura de recarga são desafios que ditarão o ritmo real da transformação.
Novo perfil do comprador
A pesquisa aponta mudanças profundas no comportamento do consumidor global. Cresce a demanda por conectividade, conteúdo digital, experiência de compra e personalização, enquanto declina a importância da imagem de marca, fidelidade e posse do veículo. O estudo também salienta a procura cada vez maior dos consumidores por análises online e comentários em redes sociais na hora de escolher o futuro automóvel.
O comprador brasileiro de 2025 mostrou que preço isolado perdeu força. A procura por itens como controle de cruzeiro adaptativo (ACC) saltaram 4,8 pontos percentuais, alcançando 29,2% de penetração, enquanto frenagem automática de emergência (AEB) avançou 4,2 pontos para 40,6%. Com ciclos de troca mais longos, a experiência de pós-venda e garantias estendidas tornaram-se pilares de fidelização, assim como atributos de sustentabilidade e o Custo Total de Propriedade (TCO, na sigla em inglês) do carro.
Cenário global e competitivo
O estudo contextualiza as mudanças brasileiras dentro de um redesenho global da indústria. A presença chinesa já domina mercados como Peru (33%), Equador (36%) e Leste Europeu (31%), enquanto mantém crescimento consistente no Chile (30%), México (16%) e Austrália (17%).
Seis tendências globais definem o setor: eletrificação pragmática com híbridos como ponte eficiente; veículos definidos por software com IA embarcada; manufatura resiliente regionalizada; transição da posse para o uso compartilhado; sustentabilidade competitiva via ESG; e complexidade no equilíbrio entre investimentos em inovação (ADAS, inteligência artificial) e rentabilidade.
O papel estratégico da importação
A Bright Consulting pondera que o setor importador deve deixar de ser visto como um “competidor predatório” para “elo essencial da modernização automotiva”. O argumento é que, sem a pressão competitiva do importado, a indústria local perde referência de eficiência global.
A consultoria recomenda três frentes de atuação: focar em mix premium e novos modelos de assinatura para contornar juros altos; acelerar validação de tecnologias com menor risco sistêmico; e atuar institucionalmente posicionando inovação como moeda de troca por previsibilidade regulatória, apresentando-se como parceiro complementar – e não inimigo – da indústria nacional.
O Brasil caminha para um mercado automotivo eclético, conclui a Bright Consulting, com eletrificação em múltiplos níveis adaptada às condições tropicais e à força do etanol, num processo que já não tem volta.
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