Stellantis faz “reset” estratégico, reduz aposta exclusiva em elétricos e prioriza híbridos
Grupo admite que superestimou ritmo da eletrificação, registra perdas bilionárias e devolve autonomia às regiões
César Tizo - fevereiro 6, 2026
A Stellantis anunciou nesta sexta-feira (6) uma ampla reestruturação global de estratégia, custos e portfólio de produtos, em um movimento que a própria companhia chama de “reset” do negócio. A decisão ocorre às vésperas da apresentação de um novo plano estratégico, prevista para maio, e parte do reconhecimento de que o grupo superestimou a velocidade da transição energética, especialmente na demanda por veículos 100% elétricos.
O reposicionamento já gerou impactos financeiros relevantes. A empresa contabilizou encargos de aproximadamente € 22,2 bilhões (cerca de R$ 138 bilhões) no segundo semestre de 2025, incluindo cancelamentos de projetos, readequação da cadeia de baterias e revisões de provisões de garantia. Como consequência, a Stellantis projeta prejuízo líquido entre € 19 bilhões (R$ 117 bilhões) e € 21 bilhões (R$ 129 bilhões) no período, suspendeu dividendos e autorizou a emissão de até € 5 bilhões (R$ 30 bilhões) em títulos híbridos para reforçar o caixa.
Na prática, o grupo afirma que passará a seguir “a demanda real dos clientes, e não imposições”, ampliando a oferta de híbridos e motores a combustão avançados, além de manter elétricos apenas onde houver escala e rentabilidade. Entre as medidas já adotadas está o cancelamento de produtos incapazes de gerar lucro, como a picape Ram 1500 elétrica, além de um redimensionamento da produção de baterias.
Segundo o CEO Antonio Filosa, o objetivo é recolocar o consumidor no centro das decisões e corrigir falhas operacionais do passado. “Os custos refletem o impacto de termos superestimado o ritmo da transição energética e de problemas de execução”, afirmou.
Apesar do cenário contábil negativo, a Stellantis destaca sinais de recuperação operacional. Os embarques globais do segundo semestre de 2025 somaram 2,8 milhões de veículos, alta de 11% sobre o ano anterior, com crescimento em todas as regiões.
Baixa procura pelo Fiat 500 elétrico levou a Stellantis a “converter” o projeto para propulsão micro-híbrida
Reflexos para a América do Sul
A nova diretriz tende a favorecer diretamente a operação sul-americana. Diferentemente da Europa e da China, onde a eletrificação avança mais rápido, mercados como Brasil e Argentina ainda apresentam forte demanda por motores a combustão, flex e soluções híbridas de menor custo.
Ao devolver maior autonomia às equipes regionais, a Stellantis sinaliza que decisões de portfólio, produção e investimento poderão ser adaptadas às preferências locais. Na prática, isso pode significar:
• prioridade para micro-híbridos (MHEV) e híbridos plenos (HEV), mais acessíveis • manutenção e evolução de motores flex • menor pressão por elétricos puros de alto custo • foco em escala e rentabilidade nas fábricas brasileiras
Esse cenário dialoga diretamente com a atual estratégia do grupo no país, onde Fiat, Jeep, Peugeot, Citroën e Ram concentram vendas em SUVs compactos, picapes e modelos flex. Projetos como a nacionalização de tecnologias híbridas e a eletrificação gradual da linha Fiat e Jeep ganham mais sentido financeiro do que apostas agressivas em veículos elétricos importados.
Além disso, a busca por eficiência industrial e qualidade pode reforçar investimentos nas plantas de Betim (MG), Goiana (PE) e Porto Real (RJ), que já operam como polos exportadores e de grande volume.
Menos elétricos “a qualquer custo”
O recado do grupo é claro: a eletrificação continua, mas não mais a qualquer preço. A Stellantis pretende manter o posicionamento em elétricos, porém condicionando lançamentos à viabilidade econômica e à demanda efetiva.
Para o Brasil, onde preço ainda é fator decisivo de compra, a estratégia reduz o risco de importações caras com baixa aceitação e abre espaço para soluções intermediárias, como híbridos flex, que podem oferecer melhor custo-benefício e volumes mais consistentes.
Com isso, a América do Sul deixa de ser apenas mercado periférico na transição energética e passa a ter papel estratégico dentro do novo desenho global do conglomerado, agora mais focado em lucro, escala e aderência ao consumidor real.
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