Fabricantes e sindicatos defendem fim definitivo de incentivo a veículos desmontados
Entidades alertam que montagem de CKD e SKD reduz conteúdo nacional e ameaça empregos qualificados
César Tizo - fevereiro 12, 2026
Centrais sindicais, sindicatos de metalúrgicos e entidades da indústria automotiva intensificaram nos últimos dias a pressão sobre o governo federal para que não renove as cotas de isenção do Imposto de Importação para veículos elétricos e híbridos importados na forma de kits desmontados (CKD) ou semidesmontados (SKD). O regime especial, que vigorou por seis meses, perdeu validade em 31 de janeiro e agora pode voltar à pauta nas próximas reuniões da Câmara de Comércio Exterior (Camex).
A posição do setor produtivo é clara: a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) defende que o benefício não seja restabelecido. Para a entidade, a medida incentiva um modelo de “industrialização de baixa complexidade”, baseado apenas na montagem de peças importadas, com pouco valor agregado local.
Segundo levantamento da associação, a indústria automotiva paga, em média, salários cerca de duas vezes maiores que o restante da indústria de transformação, além de registrar maior tempo de permanência no emprego e exigir qualificação mais elevada dos trabalhadores. Também concentra atividades estratégicas de engenharia, pesquisa e desenvolvimento.
De acordo com o presidente da Anfavea, Igor Calvet, esse conjunto de características ficaria comprometido caso o País avance para um modelo focado na simples montagem de kits. “Todas essas características se perderiam num modelo de fabricação que envolvesse apenas a montagem de kits em larga escala”, alertou.
O discurso é reforçado por outras entidades da cadeia, como o Sindipeças, que representa os fornecedores, além de executivos das montadoras, governadores e federações industriais dos nove estados que concentram fábricas de veículos e motores, entre elas FIESP, FIEMG, FIRJAN, FIERGS, FIEG, FIEPE, FIEP e FIESC.
Mobilização sindical
O movimento ganhou ainda mais peso com a adesão de centrais sindicais e sindicatos do chamado “chão de fábrica”. Assinam carta enviada às autoridades federais entidades como CUT, Força Sindical, CTB, Confederação Nacional dos Trabalhadores Metalúrgicos (CNTM), Fit Metal e 14 sindicatos regionais, incluindo o tradicional Sindicato dos Metalúrgicos do ABC.
Na avaliação das lideranças trabalhistas, a importação de veículos desmontados em grande volume pode reduzir postos de trabalho qualificados, enfraquecer fornecedores locais e comprometer investimentos em tecnologia.
“A renovação dessas cotas, especialmente em alto volume, implicará em impactos negativos ao processo de reindustrialização do país, ameaçando empregos qualificados em toda a cadeia automotiva e reduzindo os efeitos do programa Nova Indústria Brasil”, diz um trecho da carta.
Debate estratégico
O tema ocorre em um momento sensível para o setor, que busca acelerar a eletrificação da frota sem abrir mão de conteúdo nacional e desenvolvimento tecnológico. A avaliação de parte da indústria é que permitir a entrada de kits com imposto zerado pode tornar o Brasil apenas um polo de montagem, sem gerar a mesma base industrial que sustenta motores, transmissões, autopeças e engenharia local.
Para fabricantes e trabalhadores, a prioridade deveria ser estimular produção local de baterias, componentes elétricos e sistemas híbridos, ampliando o valor agregado dentro do País.
Com o fim da vigência do regime, a decisão agora está nas mãos do governo federal. Caso a Camex retome a discussão, o setor já deixou claro que a pressão política e econômica contra a renovação será intensa.
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