Montadoras recuam nos elétricos após prejuízos bilionários e reforçam aposta em híbridos e combustão
Honda, Ford e Stellantis acumulam perdas que superam dezenas de bilhões de dólares ou euros com projetos de veículos elétricos
César Tizo - fevereiro 12, 2026
Algumas das principais montadoras globais começam a rever, de forma pragmática, o ritmo da eletrificação total. Após anos de investimentos pesados em veículos 100% elétricos, Honda, Ford e Stellantis acumulam baixas contábeis bilionárias, cancelamentos de programas e prejuízos operacionais, em um movimento que sinaliza uma guinada estratégica: menos elétricos “a qualquer custo” e mais foco em híbridos, combustão eficiente e retorno financeiro.
O pano de fundo é semelhante para todas. A demanda por elétricos cresceu abaixo do esperado, os custos de desenvolvimento seguem elevados e a rentabilidade ainda é incerta em vários mercados. O resultado tem sido uma sequência de ajustes, cortes e replanejamento.
No caso da Honda, os números recentes escancaram a pressão. Nos nove meses encerrados em dezembro, a empresa registrou baixas e despesas equivalentes a 267,1 bilhões de ienes, cerca de US$ 1,7 bilhão, ligadas diretamente ao programa de elétricos. A operação acumula quatro trimestres consecutivos de perdas operacionais, que já somam 166,4 bilhões de ienes, aproximadamente US$ 1,07 bilhão.
Projeções do setor indicam que o impacto anual pode chegar a 700 bilhões de ienes, algo próximo de US$ 4,5 bilhões. Diante desse cenário, a marca japonesa engavetou parte de seus futuros modelos elétricos e decidiu revisar profundamente o plano de eletrificação.
Honda Super-ONE Prototype: conceito elétrico apresentado recentemente pela marca
Outro movimento relevante é o fim da parceria mais estreita da Honda com a General Motors no desenvolvimento de veículos elétricos. As vendas abaixo do esperado de modelos como Acura ZDX e Honda Prologue, ambos baseados na plataforma Ultium da GM, pesaram na decisão.
A nova rota da Honda passa por um reforço claro nos híbridos. A meta é praticamente dobrar as vendas dessa tecnologia nos próximos anos, reduzindo a dependência de elétricos puros enquanto o mercado amadurece.
Se a Honda está em modo de contenção, a Ford enfrenta um rombo ainda maior. A companhia reportou prejuízo líquido de US$ 8,2 bilhões em 2025, o pior resultado desde a crise financeira global de 2008. Apenas no quarto trimestre, as perdas chegaram a US$ 11,1 bilhões.
A divisão de elétricos, chamada Model e, registrou EBIT negativo de US$ 4,8 bilhões no ano. Além disso, a empresa contabilizou US$ 10,7 bilhões em encargos especiais relacionados à desvalorização de ativos e cancelamento de programas elétricos. Outros US$ 1,2 bilhão foram gastos em projetos de SUVs elétricos de três fileiras que acabaram abortados, além de US$ 3,2 bilhões ligados à reestruturação da joint venture de baterias BlueOval SK.
O recuo mais simbólico foi a descontinuação da picape F-150 Lightning totalmente elétrica, sinalizando que mesmo ícones da marca não escaparam do ajuste de rota. Para os próximos anos, a Ford já admite que continuará perdendo entre US$ 4 bilhões e US$ 4,5 bilhões anuais na divisão de elétricos, enquanto promove uma nova estratégia para reduzir riscos.
Ford F-150 Lightning
Na Europa, a Stellantis adotou postura semelhante, mas em escala ainda maior. O grupo anunciou um “reset” global, reconhecendo ter superestimado a velocidade da transição energética. Como consequência, registrou encargos de cerca de € 22,2 bilhões, o equivalente a aproximadamente R$ 138 bilhões, relacionados a cancelamentos de projetos, reestruturação da cadeia de baterias e revisões de provisões.
O prejuízo líquido projetado para o período varia entre € 19 bilhões e € 21 bilhões. A companhia suspendeu dividendos e autorizou a emissão de títulos híbridos para reforçar o caixa.
Na prática, a Stellantis passará a seguir a demanda real dos consumidores, ampliando a oferta de híbridos e motores a combustão mais eficientes, enquanto mantém elétricos apenas onde houver escala e rentabilidade. Entre os cortes está a picape Ram 1500 elétrica, além da redução de investimentos em determinadas fábricas de baterias. Até o Fiat 500 elétrico teve o projeto redirecionado para uma solução micro-híbrida diante da baixa procura.
Para a América do Sul, especialmente Brasil e Argentina, a mudança pode trazer efeitos positivos. Como a região ainda depende fortemente de modelos flex, micro-híbridos (MHEV) e híbridos plenos (HEV), a nova estratégia dá mais autonomia às operações locais e reduz a pressão por elétricos importados e caros.
Isso reforça planos de nacionalização de tecnologias híbridas e investimentos em plantas como Betim (MG), Goiana (PE) e Porto Real (RJ), priorizando escala, custo competitivo e margens mais saudáveis.
O movimento conjunto das três montadoras indica que a eletrificação continua no radar, mas agora sob critérios mais rígidos de viabilidade econômica. Depois de anos de euforia com EVs, a indústria volta a um princípio básico: vender o que o cliente quer comprar e o que dá lucro.
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