Agro brasileiro ganha força na economia, mas enfrenta margens menores, crédito restrito e riscos globais
Setor responde por 29,4% do PIB e caminha para safra recorde de 353 milhões de toneladas de grãos na temporada 2025/2026
César Tizo - março 11, 2026
O agronegócio brasileiro segue consolidado como um dos pilares da economia nacional e um dos principais fornecedores de alimentos para o mercado global. Em 2025, o chamado agro ampliado — que inclui insumos, produção agropecuária, indústria de processamento e serviços relacionados — respondeu por cerca de 29,4% do Produto Interno Bruto (PIB) do país, o maior patamar registrado em mais de duas décadas.
Além da forte participação na economia doméstica, o setor também se destaca no comércio exterior. No ano passado, as exportações do agronegócio alcançaram US$ 169,2 bilhões, representando quase metade de todas as vendas externas brasileiras.
A tendência de crescimento também aparece na produção. O Brasil se prepara para uma safra recorde de grãos na temporada 2025/2026, estimada em 353 milhões de toneladas. O volume reforça a posição estratégica do país na segurança alimentar global e evidencia a capacidade do setor de expandir sua produção mesmo em cenários econômicos desafiadores.
Apesar dos números positivos, o ambiente para o produtor rural tornou-se mais complexo. Depois do pico observado em 2022 — impulsionado pela crise global de alimentos e pelos impactos da guerra entre Rússia e Ucrânia — os preços internacionais das commodities agrícolas passaram por um movimento de correção.
Na prática, isso significa que os produtores brasileiros passaram a operar com margens mais apertadas justamente em um momento em que os custos de produção seguem elevados. Em culturas como a soja, análises de mercado já apontam redução significativa nas margens operacionais.
Esse cenário cria uma compressão típica de setores exportadores: preços internacionais mais estáveis ou em leve queda, enquanto insumos e custos financeiros continuam pressionando o caixa das propriedades rurais. Assim, embora a produção siga crescendo, o ambiente econômico torna-se mais exigente para quem está no campo.
Crédito mais seletivo
O financiamento também se tornou um dos pontos de atenção para o setor. O Plano Safra 2025/2026 disponibilizou R$ 516 bilhões em crédito rural, mas representantes do agro avaliam que o crescimento nominal dos recursos não acompanha o avanço da produção e a elevação dos custos agrícolas.
Ao mesmo tempo, algumas linhas tradicionais registraram retração nas contratações. Em contrapartida, instrumentos privados de financiamento, como as Cédulas de Produto Rural (CPR), vêm ganhando espaço no financiamento das atividades no campo.
Esse movimento indica uma mudança estrutural no sistema de crédito rural. Com instituições financeiras mais seletivas, produtores enfrentam juros elevados e exigências maiores de garantias. Dados recentes também apontam aumento da inadimplência no meio rural, com crescimento no número de pedidos de recuperação judicial ligados ao setor.
Geopolítica pressiona custos
O cenário internacional também adiciona uma nova camada de incerteza para o agronegócio brasileiro. A escalada de tensões no Oriente Médio, envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel, voltou a colocar em evidência dois pontos estratégicos do comércio global: o Estreito de Ormuz e o Mar Vermelho.
Essas rotas concentram parte relevante do transporte marítimo de energia e fertilizantes, insumos fundamentais para a agricultura. O impacto para o Brasil é direto: cerca de 85% dos fertilizantes utilizados no país são importados.
Assim, qualquer instabilidade logística ou aumento de preços no mercado internacional tende a afetar rapidamente os custos de produção no campo, ampliando a pressão sobre a rentabilidade dos produtores.
Informação e dados ganham relevância
Diante desse ambiente mais complexo, cresce a importância da informação estratégica para a tomada de decisão no agronegócio. Embora o setor tenha avançado rapidamente em tecnologia de produção, mecanização e genética, especialistas apontam que ainda há lacunas relevantes na organização de dados sobre a própria estrutura produtiva.
Um exemplo está na frota de máquinas agrícolas. Estudos recentes indicam que os equipamentos em operação no país têm idade média próxima de 15 anos. Ao mesmo tempo, mais da metade dos produtores pretende renovar ou ampliar suas máquinas nos próximos dois anos.
Compreender quem compra, onde compra, como financia e de que forma utiliza esses equipamentos tornou-se fundamental não apenas para a indústria, mas também para produtores, investidores e formuladores de políticas públicas.
Nesse contexto, iniciativas de inteligência de mercado começam a ganhar espaço no agronegócio brasileiro. Levantamentos como o “Panorama de Máquinas Agrícolas no Brasil”, desenvolvido pela consultoria Boschi Inteligência de Mercado, buscam mapear de forma mais detalhada a frota agrícola e o comportamento dos produtores com base em dados primários.
A proposta é reduzir uma lacuna histórica de informações no setor e oferecer subsídios mais precisos para decisões estratégicas.
Novo ciclo para o agro
Mesmo diante dos desafios, o agronegócio brasileiro continua sendo uma potência produtiva. No entanto, o ambiente em que o setor opera tornou-se mais complexo, combinando volatilidade geopolítica, custos pressionados, crédito mais seletivo e exigências crescentes de eficiência.
Nesse novo ciclo, produtividade continuará sendo essencial. Mas a capacidade de interpretar dados, antecipar riscos e tomar decisões estratégicas tende a se tornar um diferencial cada vez mais importante para produtores e empresas ligadas ao setor.
Mais da metade dos produtores pretende renovar ou ampliar suas máquinas nos próximos dois anos, revelam estudos – Imagem: LS Tractor
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