Nova mistura de etanol na gasolina pode enfrentar teste climático em 2026
Possível retorno do El Niño pode pressionar produção de cana e milho justamente no momento em que governo quer implantar o E32
César Tizo - maio 12, 2026
O aumento da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina de 30% para 32%, tema previsto para ser discutido ainda neste mês pelo Governo Federal, é visto como uma medida alinhada à estratégia brasileira de segurança energética e descarbonização. Entretanto, especialistas alertam que o avanço do chamado E32 poderá enfrentar um desafio relevante nos próximos meses: a capacidade de oferta de etanol diante da possível volta do fenômeno climático El Niño no segundo semestre de 2026.
A avaliação é de Domicio Santos Neto, sócio fundador do escritório Santos Neto Advogados e especialista em agronegócio. Segundo ele, a ampliação da mistura ocorre em um cenário internacional marcado por tensões geopolíticas e preocupação crescente com a dependência energética.
“O Brasil ainda depende parcialmente da importação de gasolina. Ampliar a participação do etanol reduz essa exposição com um combustível produzido domesticamente em larga escala”, afirma o especialista.
Do ponto de vista jurídico, o aumento da mistura encontra respaldo na Lei nº 14.993/2024, que autoriza a elevação da participação do etanol na gasolina para até 35%, desde que exista viabilidade técnica comprovada.
O ritmo acelerado da política, porém, chama atenção do mercado. Em menos de um ano, o Brasil saiu do E27 para o E30, implementado em agosto de 2025, e agora já discute o avanço ao E32, aproximando-se rapidamente do teto permitido pela legislação.
Segundo Santos Neto, a adoção do E30 já produziu efeitos importantes no agronegócio e no setor sucroenergético, estimulando investimentos e fortalecendo a expansão do etanol de milho no Centro-Oeste. Apesar disso, o impacto percebido pelo consumidor nos postos foi limitado.
“O repasse ao consumidor depende menos da norma e mais da dinâmica entre o preço do etanol anidro, o preço da gasolina nas refinarias, margens, tributos e logística”, explica.
De acordo com levantamentos de mercado citados pelo especialista, a redução média observada no preço da gasolina ficou em torno de apenas R$ 0,02 por litro em determinados períodos, abaixo das expectativas inicialmente projetadas pelo setor.
A principal preocupação agora envolve a oferta futura de etanol. Projeções climáticas já indicam possibilidade relevante de formação de um novo El Niño ao longo de 2026, com reflexos potencialmente prolongados até 2027.
Segundo Santos Neto, o fenômeno climático pode afetar diretamente os dois pilares da produção brasileira de etanol: a cana-de-açúcar no Centro-Sul e o milho cultivado no Centro-Oeste.
“No caso da cana, chuvas excessivas podem reduzir o ATR [Açúcar Total Recuperável] e diminuir a eficiência da conversão em etanol por tonelada. Já no milho, veranicos ou atrasos no plantio e na colheita da soja podem comprometer a janela da safrinha, fundamental para o crescimento do etanol de milho”, alerta.
O especialista observa ainda que o setor entra nesse novo ciclo com estoques de passagem nos menores níveis dos últimos seis anos, embora a expansão contínua do etanol de milho e eventuais importações reduzam o risco de desabastecimento mais severo.
No aspecto técnico, a expectativa é de que a maior parte da frota flex nacional absorva o E32 sem necessidade de adaptações relevantes. O ponto de atenção, porém, recai sobre veículos importados desenvolvidos para mercados que utilizam misturas menores de etanol, como o padrão E10.
“A aprovação do E30 não substitui automaticamente os testes específicos do E32. A validação técnica ainda será importante”, reforça Santos Neto.
Para o especialista, o avanço da mistura segue coerente com a estratégia brasileira de bioenergia no curto prazo, mas a efetividade da medida dependerá diretamente do comportamento climático e da capacidade de expansão da produção nos próximos meses.
“O E32 faz sentido hoje. O segundo semestre vai dizer se a premissa de oferta que o sustenta resiste ao clima”, conclui.
We use cookies to ensure that we give you the best experience on our website. If you continue to use this site we will assume that you are happy with it.