Carros pelo Mundo | VW deverá adaptar fábrica alemã para uso militar; chineses dominam 72% do mercado global de baterias
Veja também: BYD eleva meta internacional para até 2 milhões de veículos em 2026 e Jaguar Land Rover cortará 4 mil vagas
César Tizo - setembro 7, 2026
As principais novidades, lançamentos e movimentos da indústria automotiva internacional que podem interessar ao mercado brasileiro
A Volkswagen deu um passo importante para definir o futuro de sua fábrica de Osnabrück, na Alemanha, ao firmar um acordo preliminar que prevê a conversão da unidade para a produção de equipamentos ligados ao setor de defesa. A operação surge em meio à maior reestruturação da história recente do grupo alemão.
A edição desta segunda-feira (7) também destaca o anúncio da Jaguar Land Rover de que cortará cerca de 4 mil empregos globalmente nos próximos dois anos. Enquanto isso, a BYD elevou novamente suas metas de vendas fora da China e a Li Auto ampliará o uso de baterias e chips desenvolvidos internamente.
VW encaminha conversão da fábrica de Osnabrück para uso militar
A fábrica da Volkswagen em Osnabrück, na Alemanha, deverá deixar de produzir automóveis em 2027 e poderá ser convertida para fabricar sistemas e componentes destinados à defesa aérea.
A empresa israelense Aurelius Capital e o estado alemão da Baixa Saxônia assinaram uma declaração de intenção para assumir a unidade. A Baixa Saxônia também é a segunda maior acionista da Volkswagen.
Pelo desenho preliminar, a Aurelius teria participação majoritária. Um projeto inicial envolveria a Rafael Advanced Defense Systems, empresa que participa do desenvolvimento de sistemas israelenses de defesa antimísseis.
A Volkswagen informou que a cooperação poderá incluir sistemas e componentes destinados à Alemanha e a outros países europeus. Os detalhes industriais, societários e financeiros ainda não foram concluídos.
O conselho de trabalhadores estima que a conversão possa preservar aproximadamente 1.400 dos 1.800 empregos existentes na fábrica. O número é uma expectativa sindical, não uma garantia contratual já consolidada.
Osnabrück produziu automóveis de diferentes marcas do grupo e também realizou projetos para outras fabricantes. A busca por uma nova finalidade para o complexo acompanha o programa de reestruturação aprovado pela Volkswagen, que identificou excesso de capacidade superior a 500 mil veículos na Europa.
A mudança não afeta diretamente as fábricas brasileiras. Ainda assim, demonstra a dimensão da capacidade ociosa europeia e como instalações, profissionais e equipamentos originalmente destinados aos automóveis estão sendo redirecionados para outros setores.
Fábrica da Volkswagen em Osnabrück, Alemanha
Jaguar Land Rover cortará cerca de 4 mil empregos em dois anos
A Jaguar Land Rover anunciou que cortará cerca de 4 mil postos de trabalho globalmente durante os próximos dois anos.
A redução representa aproximadamente 10% de sua força de trabalho mundial, estimada em 40 mil profissionais. Cerca de 30 mil funcionários estão no Reino Unido, onde a fabricante mantém suas principais estruturas administrativas, de engenharia e produção.
O programa pretende gerar uma economia de 1,7 bilhão de libras e reduzir o ponto de equilíbrio da companhia para aproximadamente 300 mil automóveis anuais. Um ponto de equilíbrio menor permite que a empresa cubra seus custos com um volume inferior de vendas.
Ao mesmo tempo, a JLR planeja investir entre 15 bilhões e 18 bilhões de libras nos próximos cinco anos. Os recursos serão destinados a eletrificação, tecnologias digitais, processos industriais e serviços oferecidos aos clientes.
A companhia também informou que lançará cinco produtos durante os próximos 12 meses, mas não apresentou naquele comunicado a lista completa de modelos e mercados.
A redução de custos ocorre durante a transformação da Jaguar em uma marca exclusivamente elétrica e a ampliação da oferta eletrificada da Land Rover. As duas operações precisam financiar novos veículos e plataformas enquanto preservam a rentabilidade de produtos a combustão e híbridos.
A empresa não detalhou impactos sobre sua estrutura comercial no Brasil. Jaguar e Land Rover continuam atuando no mercado nacional, e a Land Rover ainda possui uma unidade industrial, já desativada, em Itatiaia (RJ). Não há confirmação de cortes locais nem de alteração no cronograma brasileiro de lançamentos.
Detalhe da fábrica da Jaguar Land Rover em Itatiaia (RJ)
BYD mira mais de 2,5 milhões de veículos fora da China em 2027
A BYD estabeleceu como objetivo comercializar mais de 2,5 milhões de automóveis fora da China em 2027. A informação aparece em um relatório do Deutsche Bank que reproduz comentários da direção da fabricante após a divulgação dos resultados financeiros.
A projeção para 2026 também foi elevada. A administração espera encerrar o ano com vendas internacionais entre 1,9 milhão e 2 milhões de unidades. A meta anunciada em janeiro era de 1,3 milhão e já havia sido ampliada para 1,5 milhão em março.
Entre janeiro e agosto, a companhia vendeu 1.162.260 veículos nos mercados externos, avanço de 85,72% sobre igual período de 2025. As operações internacionais representaram 43,03% das vendas totais da BYD em agosto, quando alcançaram o recorde mensal de 189.466 unidades.
No mesmo intervalo, as vendas domésticas recuaram 32,72%, para 1.505.755 veículos. Isso torna a internacionalização uma necessidade industrial, e não apenas uma oportunidade adicional de crescimento.
Para alcançar a nova projeção de 2026, a BYD precisará comercializar mensalmente entre aproximadamente 184 mil e 209 mil veículos no exterior durante os quatro meses finais do ano. A faixa inferior está próxima do volume obtido em agosto.
A estratégia inclui a ampliação da frota própria de navios, o início das atividades em novas fábricas e o crescimento da produção fora da China. O Brasil está entre os centros industriais citados no relatório, ao lado de Indonésia e Hungria.
A fabricante também reiterou o plano de instalar 6 mil estações Flash Charging fora da China. Em uma declaração anterior, um executivo indicou 2 mil equipamentos nas Américas, mas ainda não existe uma distribuição oficial por país nem confirmação de quantas unidades serão destinadas ao mercado brasileiro.
Segundo a administração, aproximadamente 250 mil veículos compatíveis com a recarga ultrarrápida já estavam encomendados, mas a oferta da segunda geração da bateria Blade permanece limitada. A normalização do fornecimento é esperada para o primeiro trimestre de 2027.
A meta internacional foi comunicada por analistas que participaram da teleconferência da empresa. Portanto, deve ser tratada como orientação da administração, sujeita a demanda, capacidade logística, abertura das fábricas e condições regulatórias nos diferentes mercados.
Linha de montagem da BYD em Camaçari (BA)
Li Auto amplia uso de baterias e chips próprios
A Li Auto pretende ampliar gradualmente o uso de baterias desenvolvidas internamente para toda a sua linha de veículos. A estratégia também envolve chips próprios destinados aos sistemas de assistência à condução.
O Li i6 atualizado, previsto para o quarto trimestre, utilizará uma bateria 5C e o processador Mach desenvolvidos pela fabricante. A pré-venda será aberta no fim de setembro, e as primeiras entregas são esperadas para o início de novembro.
A denominação 5C indica, em condições ideais, uma potência de recarga correspondente a cinco vezes a capacidade nominal da bateria. O desempenho efetivo depende da temperatura, do carregador, do estado de carga e do gerenciamento térmico.
A empresa afirma que suas células já aparecem nos modelos L8, L6 e i8. A nova geração da minivan elétrica Mega começou a ser entregue com baterias ternárias 5C da CATL, mas passará a utilizar exclusivamente o componente próprio quando a preparação industrial estiver concluída.
Pedidos do Mega confirmados a partir de 7 de setembro deverão receber a bateria desenvolvida pela Li Auto. As entregas dessa configuração estão previstas para novembro.
O futuro SUV elétrico i9 seguirá uma transição semelhante. As primeiras unidades utilizarão células da CATL, enquanto a tecnologia própria será introduzida após a ampliação da produção.
A Li Auto começou a desenvolver células em 2020. A estratégia compreende a bateria, o pacote completo e o sistema eletrônico de gerenciamento. A fabricação é realizada com apoio da Sunwoda, cuja divisão de baterias receberá um investimento equivalente a aproximadamente US$ 390 milhões da montadora.
Após a operação, a Li Auto deterá diretamente 8,79% da Sunwoda EVB, tornando-se sua segunda maior acionista individual. As duas companhias também possuem uma joint venture com participações iguais.
A internalização procura reduzir custos e aumentar o controle sobre componentes estratégicos. A margem dos veículos da Li Auto caiu de 19,4% para 9,4% entre o segundo trimestre de 2025 e igual período de 2026.
A empresa iniciou recentemente sua operação oficial nos Emirados Árabes Unidos e prepara uma expansão europeia. Não existe anúncio de vendas no Brasil, mas sua estratégia acompanha um movimento já observado em BYD e outros grupos chineses, que procuram controlar baterias, chips e programas para reduzir a dependência de fornecedores externos.
Li i6
Empresas chinesas dominam 72,8% do mercado mundial de baterias
Sete fabricantes chinesas apareceram entre as dez maiores fornecedoras mundiais de baterias automotivas entre janeiro e julho de 2026. Juntas, elas responderam por 72,8% da capacidade instalada, segundo dados da SNE Research.
A CATL permaneceu na liderança, com 289,6 GWh e participação de 39,9%. O volume cresceu 26,6% sobre o mesmo período de 2025.
A BYD ficou em segundo lugar, com 106,7 GWh e 14,7% do mercado. Embora seu volume tenha avançado 4,7%, a participação recuou diante dos 16,9% registrados um ano antes.
CATL e BYD concentraram 54,6% das baterias instaladas em veículos elétricos e híbridos plug-in no mundo. A sul-coreana LG Energy Solution ocupou a terceira posição, com 60,3 GWh e 8,3%.
CALB, Gotion, Panasonic, Eve Energy, SK On, Svolt e Rept completaram as dez primeiras colocações. A japonesa Panasonic ficou na sexta posição, enquanto LG Energy Solution e SK On representaram a Coreia do Sul.
O mercado mundial alcançou 725,2 GWh nos sete primeiros meses, crescimento de 20,4%. Somente em julho, foram instalados 116 GWh, alta anual de 22,1%.
A SNE Research registrou crescimento de 192,6% na capacidade instalada na América do Sul. O levantamento divulgado não separa esse resultado por país ou fabricante, e a elevada variação percentual pode partir de uma base reduzida.
Por isso, o número não deve ser interpretado automaticamente como crescimento equivalente das vendas de automóveis eletrificados no Brasil. Ele indica, contudo, que a região começa a exercer maior influência sobre a demanda global por células.
Os destaques desta edição mostram como a indústria automotiva global avança em direções distintas ao mesmo tempo: fabricantes tradicionais reestruturam fábricas e quadros de funcionários, enquanto empresas chinesas aceleram sua internacionalização e verticalizam tecnologias consideradas estratégicas.
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