Guerra de descontos entre os zero km derruba preços de Corolla, T-Cross e HR-V seminovos
Estudo da Auto Avaliar aponta queda de 9,3% nos preços negociados de veículos com até três anos de uso no primeiro semestre
César Tizo - setembro 8, 2026
A sequência de descontos e condições especiais adotada pelas montadoras para estimular as vendas de carros zero km já começa a produzir reflexos importantes no mercado de seminovos. Um levantamento da Auto Avaliar mostra que os preços efetivamente negociados entre empresas para veículos com até três anos de uso caíram 9,3% entre janeiro e junho de 2026.
A retração foi quase quatro vezes superior aos 2,4% registrados pela tabela Fipe no mesmo período, revelando que os valores praticados nas negociações estão sendo corrigidos em uma velocidade bem maior do que as referências tradicionais do mercado.
Em alguns modelos, a desvalorização observada nas transações foi ainda mais expressiva. Segundo a Auto Avaliar, o Toyota Corolla 2025 registrou queda de 21,2%, enquanto o Volkswagen T-Cross 2025 recuou 20,9% e o Honda HR-V 2025, 20%.
Volkswagen Nivus, Toyota Corolla Cross, Yaris e SW4 também aparecem no levantamento entre os modelos que mais perderam valor durante o primeiro semestre.
Modelo
Queda nos valores negociados
Toyota Corolla 2025
21,2%
Volkswagen T-Cross 2025
20,9%
Honda HR-V 2025
20%
Descontos nos carros novos pressionam seminovos
Um dos principais fatores por trás do movimento está no aumento das promoções envolvendo veículos zero km.
Entre maio e agosto, descontos, bônus e reposicionamentos de preços chegaram a R$ 55 mil no Mitsubishi Outlander PHEV, R$ 50 mil no Suzuki e-Vitara, R$ 38,5 mil no Fiat Fastback Hybrid e R$ 28,5 mil no BYD Song Pro.
Modelos de marcas tradicionais também passaram a contar com condições comerciais mais agressivas, incluindo Hyundai Creta, Jeep Compass, Volkswagen T-Cross e Nivus.
O problema para concessionárias e lojas de seminovos é que uma redução expressiva no preço de um carro novo cria quase imediatamente uma nova referência para o consumidor. Com isso, um usado adquirido pelo lojista poucas semanas antes pode deixar de ser competitivo mesmo sem qualquer mudança em sua condição ou quilometragem.
Na prática, a perda ocorre enquanto o veículo permanece parado no estoque, elevando o risco de o lojista precisar reduzir sua margem ou até absorver prejuízos para realizar a venda.
Mitsubishi Outlander: modelo passou por reprecificação recente
Compass zero km pode sair mais barato que Taos seminovo
Uma simulação apresentada pela Auto Avaliar exemplifica como as promoções podem alterar a relação entre carros novos e seminovos.
No estudo, um Jeep Compass Sport zero km, com preço público de R$ 174 mil, passa a custar R$ 147 mil após um desconto de R$ 27 mil. Considerando um usado de R$ 88 mil entregue como parte do pagamento, restariam R$ 59 mil para serem financiados em 30 parcelas sem juros.
Na comparação, um Volkswagen Taos Comfortline 2025 seminovo, com preço médio de R$ 164 mil e negociado por R$ 159 mil, demandaria um financiamento de R$ 71 mil.
Considerando uma taxa de juros de 1,6% ao mês, o custo total da aquisição do Taos chegaria a R$ 177.954. Dessa forma, ao final do financiamento, o seminovo custaria R$ 30.954 a mais do que o Compass zero km, além de resultar em uma parcela aproximadamente 50% superior.
É justamente esse tipo de situação que aumenta a necessidade de reajuste dos valores dos seminovos. Se o consumidor encontra um veículo novo por um preço final menor ou acompanhado de financiamento mais favorável, a loja precisa rever rapidamente a precificação do usado para mantê-lo competitivo.
Jeep Compass Sport
Preço praticado cai mais rápido que o preço de tabela
Outro dado da Auto Avaliar ajuda a dimensionar a diferença entre os preços anunciados e aqueles efetivamente praticados nas concessionárias.
Entre 2025 e junho de 2026, o preço médio transacional dos veículos zero km caiu 3,5%, enquanto o preço público apresentou retração de 1,5%.
Isso indica que bônus, descontos e condições negociadas diretamente nas lojas estão promovendo uma redução de preços antes que o movimento seja plenamente refletido nas tabelas públicas.
Para quem trabalha com veículos usados, a diferença representa um risco adicional. O levantamento citado pela Auto Avaliar aponta giro médio de 36 dias para os usados, margem bruta média de 10,1% e ticket médio de R$ 89.781.
Durante esse período, uma nova campanha de fábrica, redução de preço ou condição especial de financiamento pode mudar novamente a referência utilizada pelo consumidor e obrigar o lojista a reprecificar seu estoque.
Toyota Corolla: um dos modelos abalados pela guerra de preços entre os carros 0 km
Avanço das marcas chinesas acirra disputa
A Auto Avaliar também associa o cenário ao aumento da concorrência no mercado brasileiro, em especial com o crescimento das marcas chinesas.
Em julho, elas responderam por 22,8% do mercado analisado, totalizando 60,5 mil unidades. Os veículos provenientes da China também representaram 52,4% das importações.
Ao mesmo tempo, essas fabricantes já somavam 1.360 pontos de venda, equivalentes a 16,2% da rede considerada no levantamento.
A expansão contribui para elevar a pressão competitiva, já que novas marcas e modelos disputam consumidores recorrendo não apenas a preços, mas também a bônus, condições de financiamento e pacotes de equipamentos.
Mercado de usados segue movimentando grande volume
Apesar da pressão sobre os preços, o mercado de usados continua registrando volumes elevados no Brasil.
Entre janeiro e julho de 2026, foram negociados 7,9 milhões de automóveis e comerciais leves usados. A proporção foi de 4,88 veículos usados comercializados para cada zero km vendido.
Para a Auto Avaliar, portanto, o momento não exige necessariamente que concessionárias deixem de adquirir determinados carros, mas aumenta a importância de considerar fatores como liquidez, velocidade de desvalorização e prazo previsto para a revenda.
Entre as estratégias recomendadas estão adquirir o veículo pelo valor correto, realizar reprecificações com maior rapidez, reduzir o tempo de permanência no estoque e ampliar a rentabilidade obtida em cada cliente por meio de produtos e serviços financeiros.
A proposta é que, já no momento da compra do usado, o lojista estabeleça quanto pode pagar pelo automóvel, qual será o canal mais provável para sua revenda e qual será o prazo máximo aceitável para mantê-lo no estoque.
Em um mercado marcado por sucessivas promoções nos carros zero km, administrar corretamente esse intervalo passa a ser fundamental para evitar que uma margem aparentemente positiva seja eliminada por uma nova rodada de descontos promovida pelas montadoras.
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