Para cada carro novo vendido em 2025, Brasil comercializou sete usados
Mercado de seminovos bate marca histórica de 18,5 milhões de transferências enquanto veículos 0 km ficam 46% mais caros
César Tizo - janeiro 20, 2026
O mercado brasileiro de veículos usados e seminovos estabeleceu em 2025 uma proporção inédita no cenário automotivo global: para cada automóvel novo vendido, sete unidades usadas mudaram de mãos. Os números revelam um distanciamento sem precedentes entre os dois segmentos, com o mercado de seminovos atingindo marca histórica de 18,5 milhões de transferências, segundo a Fenauto, contra apenas 2,547 milhões de licenciamentos de automóveis e comerciais leves novos registrados pela Fenabrave.
“Estamos falando de uma proporção que beira os 7 carros usados vendidos para cada carro novo nas ruas. E mesmo fazendo um recorte conservador, excluindo motocicletas e outras categorias, trata-se de volume gigantesco que move dezenas de milhões de decisões anuais de compra, venda, troca e financiamento“, afirma J.R. Caporal, CEO da Auto Avaliar.
Embora a preferência por veículos usados seja um fenômeno observado globalmente, o Brasil teria elevado essa lógica a um patamar até então desconhecido, consolidando o seminovo como a principal porta de entrada para mobilidade individual no país.
Salto de preços afastou o consumidor do carro 0 km
A explicação para o abismo entre os dois mercados está, em grande parte, na escalada de preços dos veículos novos. Em 2021, o carro 0 km de entrada no Brasil custava cerca de R$ 53 mil: o Renault Kwid Zen era oferecido por R$ 53.690 e o Fiat Mobi Like por R$ 53.490.
Cinco anos depois, em janeiro de 2026, o mesmo “primeiro degrau” do mercado encosta nos R$ 80 mil: o Kwid Zen é listado a R$ 78.690 e o Mobi Like a R$ 81.060.
“Na prática, isso significa que o ‘primeiro degrau’ do 0 km subiu cerca de 46,6% (Kwid) a 51,5% (Mobi) em cinco anos, antes mesmo de entrar na conta os juros, e é exatamente aí que o seminovo vira a rota natural de quem quer mobilidade sem transformar o carro em um compromisso financeiro desproporcional“, explica Caporal.
Mais caro, mas girando mais rápido
Apesar do encarecimento, os veículos 0 km estão saindo mais rapidamente das concessionárias. O último PVZ – Estudo de Preços de Veículos Zero Km, realizado pela MegaDealer com dados da Auto Avaliar, mostrou que em dezembro o tíquete médio subiu para R$ 174.621, considerando todas as categorias, enquanto o giro de estoque caiu de 36 para 32 dias em média.
O estudo analisou mais de 700 mil operações de vendas de veículos 0 km em todo o ano de 2025 para chegar aos indicadores-chave de performance e informações qualificadas sobre precificação e descontos praticados pelas concessionárias.
Fábio Braga, Country Manager da Megadealer, destaca o impacto positivo do programa de redução do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados), que entrou em vigor em julho de 2025. “Os preços foram impactados prioritariamente por dois fatores chave: a entrada de novas marcas chinesas, lançando veículos eletrificados em diferentes segmentos, e a redução de impostos ocorrida no meio do ano, que aumentou a competitividade especialmente nos segmentos de entrada do mercado“, afirma.
Seminovos também batem recordes
No segmento de usados e seminovos, a alta nas vendas fez com que o preço dos veículos atingisse patamar recorde em dezembro, chegando a um tíquete médio de R$ 90.892. No período, o giro de estoque caiu de 39 para 37 dias, segundo o Estudo Megadealer de Performance de Veículos Usados (PVU) realizado pela Auto Avaliar.
“Em termos de rentabilidade, o nosso estudo mostrou que, na média geral, o ROI (retorno sobre investimento) dos seminovos ficou na casa de 62%, indicando que o mercado começa o novo ano ainda mais forte e competitivo“, ressalta Fábio Braga.
A importância estratégica do valor residual
Para J.R. Caporal, as montadoras que ignoram o mercado de seminovos cometem erro estratégico grave. O executivo defende que o veículo 0 km deve ser encarado apenas como a ponta da cadeia automotiva, nunca o seu fim.
“A montadora que ignora o ciclo de vida do veículo está terceirizando o futuro de sua própria marca para a desorganização do mercado informal. Controlar o valor residual, organizar programas de recompra e criar mecanismos para sustentar o preço do seu próprio seminovo é vital. Essa atuação protege toda a rede de concessionárias e, fundamentalmente, sustenta o preço do carro novo, garantindo solidez à marca no longo prazo”, avalia.
A gestão do valor residual tornou-se ainda mais crítica em um cenário onde o ciclo de troca de veículos se alonga e a experiência pós-venda ganha peso decisivo na fidelização do cliente — tendências identificadas pela Bright Consulting em estudo recente.
Com 18,5 milhões de transferências anuais, o mercado de seminovos movimenta uma engrenagem econômica gigantesca que envolve desde pequenos revendedores até grandes redes especializadas, gerando empregos, tributos e liquidez para o sistema financeiro. A proporção de 7 para 1 em relação aos carros novos consolida o Brasil como um dos mercados mais dependentes de veículos usados do mundo, refletindo não apenas uma preferência, mas uma necessidade econômica de milhões de brasileiros que buscam mobilidade dentro de suas possibilidades financeiras.
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