Anfavea: mudar regras para elétricos coloca em risco R$ 140 bilhões em investimentos
Para entidade, alterar regras colocaria em risco investimentos de mais de R$ 140 bilhões anunciados pela indústria automotiva até 2033
César Tizo - junho 20, 2026
A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) divulgou na última sexta-feira (19) uma carta aberta em defesa da manutenção das regras estabelecidas pelo governo federal para a recomposição gradual das tarifas de importação de veículos elétricos e para o encerramento das cotas que permitem a importação de kits destinados à montagem de veículos sem recolhimento integral de tributos.
No documento, a entidade afirma que qualquer alteração nos compromissos assumidos anteriormente comprometeria a previsibilidade regulatória que serviu de base para decisões de investimento da indústria automotiva instalada no Brasil.
Segundo a Anfavea, o cronograma de recomposição tarifária para veículos eletrificados, estabelecido inicialmente em 2023 e ajustado em 2025, buscou equilibrar dois objetivos: estimular a eletrificação da frota nacional e, ao mesmo tempo, incentivar a produção local, a geração de empregos e o desenvolvimento tecnológico.
A associação argumenta que a retomada gradual das tarifas não impediu a entrada de novas fabricantes no mercado brasileiro. Como exemplo, cita a chegada de 11 novas marcas ao país apenas no primeiro trimestre de 2026.
Estoques elevados preocupam indústria
Um dos principais pontos destacados pela entidade é o crescimento dos estoques de veículos importados. De acordo com a Anfavea, o volume chegou ao equivalente a 150 dias de vendas em maio deste ano, patamar considerado elevado para os padrões do setor.
Na avaliação da associação, parte desse movimento estaria relacionada ao aproveitamento do período de tarifas reduzidas para antecipação de importações, o que poderia gerar distorções competitivas em relação às empresas que investem em produção local.
A entidade ressalta que as montadoras com operação industrial no país anunciaram mais de R$ 140 bilhões em investimentos até 2033, com foco em eletrificação, descarbonização, engenharia, pesquisa, desenvolvimento de produtos e ampliação da cadeia de fornecedores.
Eletrificados nacionais avançam
A Anfavea também destaca o crescimento da participação dos veículos eletrificados produzidos no Brasil. Segundo a entidade, esses modelos responderam por 26% das vendas do segmento em 2025 e já alcançam 40% em 2026.
Ao mesmo tempo, a associação observa que os emplacamentos de veículos eletrificados importados cresceram 214% entre 2023 e 2025, argumento utilizado para sustentar que a recomposição gradual das tarifas não tem impedido a expansão da eletromobilidade no país.
Para a entidade, o principal desafio brasileiro não é acelerar a adoção de veículos eletrificados, mas garantir que a transformação tecnológica seja acompanhada por investimentos em engenharia, pesquisa, desenvolvimento de fornecedores e geração de empregos qualificados.
Kits importados
Outro tema abordado na carta aberta é a utilização de kits importados para montagem de veículos no Brasil.
A Anfavea reconhece que esse mecanismo pode cumprir papel relevante durante a fase inicial de implantação de uma operação industrial. No entanto, argumenta que sua utilização deve evoluir para níveis mais elevados de nacionalização e integração produtiva.
Segundo a entidade, a manutenção prolongada de benefícios para a importação desses conjuntos poderia desestimular investimentos estruturantes na cadeia automotiva nacional.
Um estudo elaborado pela associação aponta que uma eventual ampliação da produção baseada predominantemente em kits importados poderia resultar em perdas de R$ 96,8 bilhões em vendas para a indústria de autopeças, redução de R$ 24,3 bilhões na arrecadação federal e eliminação de aproximadamente 68 mil empregos diretos, além de 191 mil postos de trabalho em toda a cadeia automotiva.
O que a Anfavea defende
Na carta, a associação lista quatro pontos considerados fundamentais para a preservação dos investimentos anunciados pelo setor:
Manutenção integral do cronograma de recomposição das tarifas de importação para veículos eletrificados;
Não renovação das cotas de importação com alíquota zero encerradas em janeiro de 2026;
Não criação de mecanismos que adiem ou flexibilizem o cronograma tarifário vigente;
Realização de diálogo prévio com a indústria antes de eventuais mudanças nas regras que fundamentaram os investimentos anunciados.
Para a entidade, alterações na fase final de implementação das medidas poderiam comprometer a confiança dos investidores e enfraquecer a estratégia de consolidação do Brasil como polo de engenharia, inovação e desenvolvimento da nova mobilidade.
Segundo Anfavea, manutenção prolongada de benefícios aos kits importados para montagem de veículos no Brasil pode desestimular investimentos estruturantes na cadeia automotiva nacional
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