Quatro em cada dez entregas no Brasil são feitas por motos com mais de 10 anos
Pesquisa aponta que a frota envelhecida é predominante entre entregadores e evidencia o desafio do programa federal de renovação veicular
César Tizo - junho 23, 2026
A implementação do programa federal Move Brasil, voltado à mobilidade de entregadores, lança luz sobre um dos principais desafios do setor: a idade avançada da frota utilizada por profissionais que dependem das plataformas de entrega para gerar renda. Levantamento realizado pela Machine, com base em 1,8 milhão de corridas registradas em abril de 2026, revela que 40,13% das entregas no país ainda são realizadas por motocicletas fabricadas até 2015.
O dado evidencia a forte presença de veículos com mais de uma década de uso em uma atividade que se tornou essencial para a economia digital. Além de refletir a durabilidade das motocicletas mais populares do mercado, o cenário também expõe a dependência dos entregadores de ativos antigos, muitas vezes associados a custos mais elevados de manutenção e menor eficiência operacional.
O tema ganha relevância com o lançamento do Move Brasil, programa anunciado pelo governo federal em junho com o objetivo de facilitar o acesso ao crédito e estimular a renovação da frota. A iniciativa contempla o financiamento de veículos zero-quilômetro produzidos no país, incluindo motocicletas de até 160 cilindradas e bicicletas elétricas de até 1.000 watts, perfil que corresponde à maior parte dos veículos utilizados pelos entregadores.
Apesar da predominância dos modelos mais antigos, os números indicam que o processo de renovação já está em curso. Segundo o levantamento, 37,9% das entregas foram realizadas por motocicletas fabricadas entre 2022 e 2026. Ainda assim, esse grupo não supera a participação das motos mais antigas, que continuam sendo a base das operações de entrega em todo o país.
Outro dado relevante mostra que 91,11% das entregas foram feitas por veículos enquadrados nos critérios estabelecidos pelo Move Brasil. Na avaliação da Machine, isso demonstra que a política pública foi desenhada para atender a uma parcela significativa da frota atualmente em circulação, ampliando seu potencial de alcance.
“Mais do que incentivar a compra de veículos novos, o programa tenta corrigir um descompasso estrutural. A presença massiva de modelos antigos não é apenas uma escolha dos entregadores, mas reflexo de barreiras históricas de acesso a crédito, informalidade e volatilidade de renda. Diante disso, a renovação da frota depende menos de intenção e mais de viabilidade financeira”, afirma Júlia Camossa, estatística responsável pela plataforma.
A pesquisa também aponta que a eletrificação ainda tem presença quase simbólica no segmento. Veículos elétricos responderam por apenas 0,2% das entregas analisadas, participação concentrada principalmente em bicicletas elétricas. A ausência de motocicletas elétricas em escala reforça que a transição energética no setor ainda enfrenta obstáculos relacionados a custo, infraestrutura e acesso ao financiamento.
Entre os modelos mais utilizados pelos entregadores estão motocicletas conhecidas pela robustez e baixo custo operacional, como Honda CG 160, CG 150 e CG 125. Também aparecem com destaque a Honda Biz e a Yamaha Factor, veículos amplamente reconhecidos pela confiabilidade mecânica e pela adequação ao uso intensivo no trabalho diário.
Os dados mostram que o Brasil possui uma base de entregadores altamente ativa e funcional, mas sustentada por uma frota envelhecida. Nesse contexto, o Move Brasil surge como uma tentativa de reorganizar essa estrutura produtiva por meio da renovação dos veículos utilizados pelos trabalhadores.
O sucesso da iniciativa, porém, dependerá não apenas da disponibilidade de crédito, mas também da capacidade de transformar essa oferta em adesão efetiva. Para milhares de entregadores, renovar a motocicleta significa mais do que trocar de veículo: representa a possibilidade de reduzir custos, aumentar a produtividade e garantir melhores condições para manter a atividade.
Mais de 40,13% das entregas no país são realizadas por motocicletas com mais de 10 anos de uso – Imagem: Rovena Rosa/Agência Brasil
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