Para CEO da Volvo, fórmula do carro global já não serve na China
Fabricante prepara modelos para a China com tecnologia da Geely e mantém outra base para os mercados ocidentais
César Tizo - outubro 28, 2026
A Volvo está revendo uma das premissas mais conhecidas da indústria automotiva: desenvolver um carro para vendê-lo em diferentes regiões do mundo. Na China, a fabricante considera necessário ir além dessa fórmula, com produtos e tecnologias pensados especificamente para aquele mercado.
Esse é o ponto central da declaração de Håkan Samuelsson, presidente e CEO da empresa, destacada pela CNBC em uma entrevista do executivo ao canal. A discussão ajuda a entender uma mudança que vai além de lançar novas carrocerias ou oferecer mais equipamentos.
Na prática, a Volvo prepara duas bases tecnológicas para atender a realidades diferentes. O objetivo é preservar a identidade da marca, mas adaptar o desenvolvimento dos carros às condições de cada região. Software, assistência à condução, custos e velocidade de lançamento entram nessa equação.
XC70 já apresentado pela Volvo
O que mudou na China
No comunicado sobre os resultados do terceiro trimestre, divulgado em 23 de outubro, a Volvo descreve concorrência intensa das novas alternativas chinesas e forte pressão sobre os preços. A receita da marca no país caiu quase 50% em relação ao mesmo período de 2025. O indicador se refere ao faturamento, não a uma redução equivalente no número de carros vendidos.
O balanço e os cortes anunciados pela fabricante já foram detalhados pelo Guru dos Carros. Aqui, o ponto relevante é a resposta de produto: os dois primeiros de seis novos modelos voltados à China deverão ser apresentados e entrar em produção em meados de 2027, com maior cooperação com a Geely.
Segundo a Volvo, esses carros terão uma base tecnológica chinesa e sistemas avançados de assistência à condução, conhecidos pela sigla ADAS. A empresa ainda precisa demonstrar, nos produtos finais, como essa combinação se traduzirá em competitividade.
Håkan Samuelsson, presidente e CEO da Volvo Cars
Diferença também estará no software
Para os mercados ocidentais, a Volvo prevê sete novos carros com sua base tecnológica HuginCore. Para a China, serão seis, apoiados em tecnologia regional, plataformas e componentes compartilhados.
Isso permite interpretar a mudança como uma revisão do antigo mantra do “carro global”.
Uma marca pode manter elementos comuns de design e posicionamento sem exigir que todos os seus modelos utilizem exatamente as mesmas soluções eletrônicas em qualquer país.
O responsável pela área de tecnologia da Volvo, Alexander Petrofski, relaciona a cooperação com a Geely à oferta de cockpits digitais competitivos na China. Também apresenta uma meta de menos de dois anos entre o início de um programa de desenvolvimento e a chegada do veículo ao mercado chinês.
É uma ambição, não um prazo já comprovado para todos os projetos. Ainda assim, o objetivo ajuda a dimensionar a mudança: a adequação local deverá começar no desenvolvimento, e não apenas na escolha de versões para uma linha já pronta.
Cabine do XC70 atual; os novos projetos para a China ainda serão apresentados
O papel da Geely
O plano anunciado pela Volvo em 17 de setembro deste ano prevê compartilhar plataformas, componentes e cadeia de fornecimento com a Geely, além de contar com software específico para a China. A fabricante associa sua regionalização às restrições tecnológicas, tarifas comerciais e diferenças nas preferências dos consumidores.
Há, portanto, uma dimensão industrial nessa decisão. Aproveitar uma estrutura tecnológica existente é a alternativa escolhida para desenvolver os modelos chineses, enquanto os carros ocidentais continuarão aproveitando investimentos nas plataformas SPA2 e SPA3.
A leitura é que a Volvo procura combinar diferenciação comercial com compartilhamento nos bastidores. O desafio será oferecer produtos reconhecidos como Volvo, mesmo quando a base técnica não for a mesma em todos os mercados.
E o Brasil?
Os documentos citados não confirmam a chegada desses seis modelos chineses ao Brasil. Também não permitem concluir que a marca abandonará carros globais ou que um veículo desenvolvido na Europa deixou de ser adequado para qualquer outro mercado.
A discussão é mais específica: a Volvo considera que competir na China exige uma resposta própria.
Para o consumidor brasileiro, vale acompanhar quais soluções dessa nova organização chegarão aos futuros produtos, sem transformar um plano regional em anúncio de lançamento nacional.
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