Fevereiro registra segunda melhor média diária de vendas em dez anos, mas exportações derrubam produção
Indústria automotiva brasileira encerra o primeiro bimestre de 2026 com mercado interno aquecido e avanço histórico dos elétricos
César Tizo - março 6, 2026
O setor automotivo brasileiro abriu 2026 com um retrato de contrastes: enquanto as vendas internas surpreenderam positivamente, a produção recuou no bimestre, arrastada pela forte queda nas exportações.
Os dados divulgados nesta sexta-feira (6) pela Anfavea — Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores — mostram que fevereiro foi o segundo melhor mês em média diária de vendas nos últimos dez anos, com 10,3 mil unidades emplacadas por dia.
Mesmo assim, o tombo de 28% nas exportações acumuladas no bimestre foi suficiente para pressionar a produção, que caiu 8,9% em relação ao mesmo período de 2025.
Mercado interno resiliente
No acumulado de janeiro e fevereiro, os emplacamentos totalizaram 355,7 mil unidades, resultado praticamente idêntico ao do primeiro bimestre do ano anterior — uma queda simbólica de 0,1%.
O desempenho de fevereiro, isoladamente, foi expressivo: alta de 11,2% na comparação com fevereiro de 2025 e de 26,7% ante janeiro deste ano, reflexo do menor número de dias úteis no primeiro mês do ano e do vigor da demanda por automóveis e comerciais leves.
Esse segmento acumulou alta de 18% nos emplacamentos no bimestre frente ao mesmo período de 2025, puxado especialmente pelos automóveis, que cresceram 2,9% no período.
Exportações em queda
A produção total de veículos no bimestre chegou a 368 mil unidades, recuo de 8,9% sobre o mesmo período de 2025. O principal responsável pelo desempenho negativo foi a queda abrupta nas exportações: apenas 59,4 mil unidades foram embarcadas ao exterior entre janeiro e fevereiro, ante 82,4 mil no mesmo intervalo do ano anterior.
A Argentina, principal destino dos carros fabricados no Brasil, apresentou redução de 7,5% nas compras em fevereiro. O México, segundo maior mercado para as exportações brasileiras, registrou oscilação positiva no mês — alta de 318,8% em fevereiro ante janeiro —, mas o volume ainda não compensa a contração argentina.
“Causa preocupação a retração expressiva nas exportações para a Argentina, mercado que nos ajudou muito nos resultados positivos de 2025“, afirmou o presidente da Anfavea, Igor Calvet.
Um fator adicional que distorce a comparação é o calendário: em 2025, o Carnaval caiu em março, o que favoreceu o ritmo de produção em fevereiro daquele ano. Em 2026, o feriado ocorreu em fevereiro, reduzindo os dias úteis no mês.
Caminhões e ônibus
O segmento de veículos pesados segue enfrentando dificuldades. No bimestre, as vendas de caminhões e ônibus recuaram 29,4% frente aos dois primeiros meses de 2025. Os caminhões pesados sofreram queda ainda mais expressiva: -36,3% no acumulado.
No entanto, os números de fevereiro isolado apontam para uma possível virada. Os emplacamentos de caminhões subiram 3,3% em relação a janeiro, e os de ônibus avançaram 10,7% no mesmo período. A expectativa é que o programa Move Brasil, do governo federal, que oferece financiamentos com taxas reduzidas pelo BNDES para troca de frotas antigas por seminovos ou zero-quilômetro, continue aquecendo o segmento. Mais de R$ 4 bilhões já foram liberados no âmbito da iniciativa.
Eletrificados nacionais batem recorde
Um dos destaques positivos do mês foi o avanço dos veículos eletrificados. Em fevereiro, 28.120 unidades de automóveis híbridos e elétricos foram emplacadas no país, representando 15,9% do total — índice que vem crescendo consistentemente desde o início de 2025, quando era de 9,3%.
Mais relevante do que o volume total é a composição desse mercado: pela primeira vez na série histórica da Anfavea, os modelos fabricados no Brasil responderam por 43% dos eletrificados vendidos no mês — um avanço expressivo da indústria nacional nesse segmento estratégico.
O programa Carro Sustentável também registrou desempenho positivo: no período de julho de 2025 a fevereiro de 2026, as vendas totais somaram 317 mil unidades, alta de 24,3% sobre o intervalo equivalente do ano anterior. As vendas no varejo cresceram 62,1%, enquanto as vendas diretas avançaram 15,1%.
Emprego estável
O nível de emprego no setor automotivo chegou a 110,8 mil postos de trabalho em fevereiro, uma alta marginal frente aos 109,5 mil registrados em março de 2025, início da série acompanhada pela Anfavea.
No campo dos estoques, os veículos importados apresentam situação delicada: com 182 dias de estoque disponível ao final de fevereiro, o volume é consideravelmente superior ao dos nacionais, que contam com apenas 26 dias de estoque. No total, o estoque de veículos somou 391,6 mil unidades em fevereiro, ante 363,5 mil em janeiro.
Cenário externo
A conjuntura internacional segue como principal fator de risco para o setor. A guerra no Oriente Médio elevou os preços do petróleo e do dólar, encarecendo custos logísticos e reduzindo a competitividade das exportações brasileiras. As incertezas tarifárias nos Estados Unidos e os conflitos geopolíticos ampliam a instabilidade política global e desfavorecem o comércio bilateral.
No plano doméstico, a taxa Selic permanece em 15% ao ano, pressionando o crédito para compra de veículos. Com a inflação ao consumidor ainda sensível aos choques externos, a expectativa de corte dos juros ao longo de 2026 pode se postergar, segundo análise da própria Anfavea.
“Temos desafios para manter nosso crescimento dos últimos anos, e o mais novo deles é a guerra no Oriente Médio, que pode ter impactos macroeconômicos e logísticos. Porém, de nossa parte, acreditamos na resiliência da cadeia automotiva brasileira e na firme intenção dos nossos associados de continuar investindo no país“, concluiu Igor Calvet.
We use cookies to ensure that we give you the best experience on our website. If you continue to use this site we will assume that you are happy with it.