Acordo Mercosul-UE entra em vigor com impacto limitado no setor automotivo
Tratado histórico começa a produzir efeitos jurídicos nesta sexta-feira (1º) e integra cerca de 718 milhões de pessoas
César Tizo - maio 1, 2026
O maior acordo comercial já firmado pelo Brasil entrou em vigor nesta sexta-feira (1º de maio). Fruto de mais de duas décadas de negociações, o Acordo de Parceria entre o Mercosul e a União Europeia passa a produzir efeitos jurídicos a partir desta data, inaugurando uma nova fase nas relações econômicas entre dois dos maiores blocos do planeta. Juntos, Mercosul e UE reúnem aproximadamente 718 milhões de pessoas e um Produto Interno Bruto combinado de cerca de US$ 22,4 trilhões.
Para o setor automotivo — um dos mais sensíveis de toda a negociação —, a entrada em vigor do acordo é acompanhada de expectativa moderada. Na avaliação da Anfavea, a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores, o efeito prático imediato é estreito e bastante específico.
“Não dá pra falar em impacto relevante por enquanto“, apurou o Guru dos Carros com a área de comércio exterior da associação. Segundo a Anfavea, o benefício concreto neste momento se limita aos veículos eletrificados — elétricos e híbridos — fabricados na Europa. Esses modelos, que teriam sua alíquota de importação elevada progressivamente até chegar a 35% em julho, passam a ser tributados em 25% para os fabricantes europeus, por força do acordo. Os veículos a combustão, por sua vez, permanecem sujeitos à tarifa padrão de 35%.
Proteções negociadas
O texto do acordo reconhece a sensibilidade do setor automotivo e estabelece condições especiais para a abertura do mercado brasileiro. Veículos eletrificados terão um período de desgravação tarifária de 18 anos; os movidos a hidrogênio, de 25 anos; e os de novas tecnologias, de até 30 anos — prazos significativamente maiores do que os adotados para outros segmentos da indústria, e que refletem a cautela com que o governo brasileiro conduziu essa parte da negociação.
Além dos prazos dilatados, o capítulo de Salvaguardas Bilaterais do acordo inclui um mecanismo específico para o setor automotivo, desenhado para preservar e promover investimentos em caso de surtos de importação decorrentes da liberalização. É, na prática, uma válvula de segurança para proteger a cadeia produtiva local enquanto ela se adapta à nova realidade competitiva. “É um impacto muito de longo prazo, até todos aqueles anos de redução bem gradual da alíquota“, pondera a Anfavea.
O acordo e seus números
A UE é hoje o segundo maior parceiro comercial do Brasil. Em 2025, a corrente bilateral de comércio somou aproximadamente US$ 100 bilhões — o equivalente a 16% de todo o comércio exterior brasileiro. O Brasil exportou US$ 49,8 bilhões para o bloco europeu no período, com destaque para combustíveis e óleos minerais (22%), café (14,7%) e minérios (8,8%). Na outra ponta, importou US$ 50,3 bilhões, sendo que veículos rodoviários já respondem por 7,8% dessas compras — o terceiro maior item da pauta importadora.
Com o acordo, a UE se compromete a eliminar tarifas de importação sobre aproximadamente 95% dos bens brasileiros, cobrindo 92% do valor das compras europeias. Do lado brasileiro, a abertura abrange cerca de 91% dos bens e 85% do valor das importações provenientes do bloco europeu. A lista de exclusões representa apenas 9% dos produtos — e é justamente em torno dessas margens que setores como o automotivo travam as principais disputas internas.
Impactos para a economia
As projeções do governo federal são otimistas no médio prazo. Segundo simulações realizadas pelo Ministério das Relações Exteriores, os efeitos do acordo devem se consolidar até 2044 com impacto positivo de 0,34% sobre o PIB brasileiro — o equivalente a R$ 37 bilhões —, aumento de 0,76% nos investimentos (R$ 13,6 bilhões) e redução de 0,56% no nível de preços ao consumidor. Os salários reais, segundo as mesmas projeções, devem crescer 0,42%.
Quando somado aos acordos com Singapura (2023) e com a Associação Europeia de Livre Comércio — a EFTA (setembro de 2025) —, o conjunto de tratados fechados pelo Mercosul deve gerar um aumento de R$ 67,6 bilhões no PIB e de R$ 25,3 bilhões nos investimentos, além de promover redução nos preços para o consumidor brasileiro.
Além do comércio
O texto vai além da liberalização tarifária. O acordo incorpora compromissos em temas como sustentabilidade, direitos humanos, propriedade intelectual e compras governamentais. A UE também se comprometeu a oferecer um pacote inédito de cooperação para apoiar a implementação do tratado nos países do Mercosul, com atenção especial a setores mais vulneráveis à concorrência europeia.
No campo automotivo, a expectativa de longo prazo é que a abertura gradual do mercado sirva como indutor de modernização da indústria nacional — atraindo investimentos em tecnologias limpas e estimulando a integração de montadoras e fornecedores brasileiros às cadeias produtivas europeias. Por ora, o dia a dia das concessionárias e das fábricas segue praticamente inalterado. A história do maior acordo comercial do Brasil começa hoje — mas seus capítulos mais decisivos ainda estão por ser escritos.
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