Carro elétrico usado: saúde da bateria pode ser decisiva na hora da compra
Especialista alerta que expansão da frota eletrificada exige capacitação técnica e métodos para medir a saúde das baterias
César Tizo - setembro 3, 2026
O avanço dos veículos elétricos e híbridos plug-in no Brasil começa a criar um novo desafio para o setor automotivo: preparar a cadeia de pós-venda para acompanhar o crescimento da frota. Capacitação de profissionais, padronização dos reparos em baterias e métodos confiáveis para avaliar o estado de saúde desses componentes estão entre os pontos que precisam evoluir no país.
A avaliação é de Guilherme Porazza Dias, gerente de Mobilidade na TÜV Rheinland e autor do artigo “Pós-venda de veículos elétricos: é preciso desenvolver mão de obra especializada, padronizar reparações e medição da saúde da bateria“, encaminhado na última quarta-feira (2) ao Guru dos Carros.
Segundo os dados da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE) citados pelo autor, o Brasil emplacou 181.542 veículos elétricos plug-in em 2025, crescimento de 44% em relação às 125.624 unidades contabilizadas no ano anterior. A frota de modelos plug-in em circulação no país já supera 410 mil veículos.
Ainda de acordo com os números reunidos no artigo, os eletrificados responderam por 9% das vendas de veículos leves novos no ano passado e chegaram a 13% em dezembro. Paralelamente, a infraestrutura pública e semipública de recarga também se expande: o país já teria mais de 21 mil pontos, com proporção aproximada de 20 veículos para cada eletroposto.
Crescimento da frota cria novo desafio para o pós-venda
Para Dias, porém, a evolução das vendas precisa ser acompanhada por uma estrutura de manutenção capaz de atender esses automóveis durante todo o seu ciclo de vida.
Embora veículos eletrificados compartilhem componentes convencionais com modelos a combustão, como suspensão e parte dos sistemas mecânicos, sua manutenção também envolve circuitos de alta tensão, eletrônica de potência e diagnósticos digitais mais complexos.
O profissional precisa, por exemplo, compreender o funcionamento do Sistema de Gerenciamento da Bateria, o chamado BMS, além de inversores, sistemas de gerenciamento térmico e procedimentos de segurança específicos para intervenções nos componentes de alta tensão.
Também é necessário saber realizar a desenergização adequada do veículo antes de iniciar determinados serviços, reduzindo os riscos durante intervenções no automóvel ou na própria bateria.
Formação especializada ainda precisa avançar
Um passo nessa direção foi a publicação da ABNT PR 1025, no fim de 2025, com orientações relacionadas à manutenção de veículos eletrificados.
Dias ressalta, entretanto, que se trata de uma prática recomendada, e não de uma norma obrigatória. Na avaliação do especialista, ainda é necessário construir um consenso que possa resultar em uma norma técnica consolidada para o setor.
Outro ponto levantado é a ampliação dos centros de treinamento. Quanto maior a frota circulante, maior será a necessidade de profissionais independentes capazes de realizar manutenção e diagnóstico com segurança.
Hoje, segundo o autor, boa parte do atendimento especializado permanece concentrada nas concessionárias. Esse cenário pode limitar as alternativas para os proprietários e elevar os custos de manutenção, especialmente à medida que elétricos e híbridos plug-in passam a ganhar espaço no mercado de usados.
A capacitação também não deveria se restringir aos reparadores. O artigo chama atenção para a necessidade de preparar profissionais dos órgãos de segurança pública para lidar com acidentes envolvendo modelos eletrificados, considerando os riscos específicos associados aos sistemas elétricos de alta tensão.
Reparar uma bateria pode evitar a substituição completa
Outro desafio está no reparo das baterias de tração. Já existem iniciativas capazes de substituir módulos ou células defeituosas sem que seja necessário trocar todo o conjunto.
Nesse tipo de procedimento, o pack da bateria é aberto para a realização de testes em seus diferentes módulos, permitindo identificar componentes danificados e realizar intervenções localizadas.
O problema, segundo Dias, é a ausência de uma regulamentação brasileira específica e obrigatória para o recondicionamento dessas baterias. Na falta de uma normativa nacional, o setor recorre a referências internacionais como IEC 62660, IEC 62133 e ISO 26262 para aspectos relacionados à segurança, confiabilidade das células e funcionamento dos sistemas eletrônicos após os reparos.
Saúde da bateria deverá ser decisiva nos elétricos usados
A avaliação do chamado State of Health, ou SoH, aparece como outro ponto central para a consolidação do mercado de veículos elétricos usados.
O indicador procura determinar quanto da capacidade original da bateria continua disponível. Isso é importante porque dois veículos do mesmo modelo e com quilometragens semelhantes podem chegar ao mercado de usados com níveis bastante diferentes de degradação da bateria.
Entre os fatores capazes de afetar sua vida útil estão o uso frequente de carregadores ultrarrápidos, exposição prolongada a temperaturas elevadas e determinados hábitos de carregamento, como manter a bateria descarregada por períodos extensos ou submetê-la constantemente a cargas até 100%, segundo o artigo.
Assim, a quilometragem deixa de ser suficiente, isoladamente, para indicar as condições de um elétrico usado.
Um carro submetido diariamente a temperaturas elevadas e recargas rápidas, por exemplo, pode apresentar degradação diferente da encontrada em outro exemplar equivalente utilizado em condições menos severas.
A relevância econômica é considerável. Dias estima que a bateria possa representar entre 30% e 50% do valor total de um veículo elétrico, fazendo com que conhecer seu estado de conservação seja fundamental para estabelecer o preço de um exemplar usado.
Certificado da bateria pode virar o “laudo cautelar” dos elétricos
Nesse contexto, o especialista defende a evolução das certificações independentes para determinar o SoH das baterias.
Até recentemente, explica Dias, a avaliação ficava essencialmente vinculada às informações disponibilizadas pelo próprio BMS do veículo. O autor pondera, entretanto, que esses dados podem não representar integralmente as condições reais às quais a bateria foi submetida ao longo de sua utilização.
A proposta seria ampliar a oferta de avaliações independentes, capazes de analisar itens como capacidade residual, balanceamento entre as células e grau de envelhecimento do conjunto durante procedimentos controlados de teste e carregamento.
Com uma metodologia padronizada, seria possível fornecer ao comprador de um elétrico usado um certificado que servisse como mais um elemento para estabelecer o estado real e o valor daquele automóvel.
Dias compara a solução ao papel desempenhado atualmente pelo laudo cautelar no mercado de usados, documento utilizado para analisar aspectos como estrutura, originalidade e histórico do veículo.
A conclusão do autor é que a expansão da eletromobilidade não depende apenas do aumento das vendas e da infraestrutura de recarga. Para sustentar esse crescimento no longo prazo, o desenvolvimento da cadeia de reparação, capacitação profissional e avaliação das baterias precisará avançar no mesmo ritmo da frota eletrificada brasileira.
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