Romi-Isetta completa 70 anos com legado de inovações; evento celebra pioneiro nacional
Modelo lançado em 5 de setembro de 1956 antecipou soluções como carroceria monobloco e sistema elétrico de 12 V
César Tizo - setembro 2, 2026
Setenta anos depois de chegar às ruas brasileiras, o Romi-Isetta volta aos holofotes não apenas pelo papel histórico que desempenhou no nascimento da indústria automobilística nacional, mas também por uma série de soluções técnicas que anteciparam tendências que hoje são comuns nos automóveis.
Lançado oficialmente em 5 de setembro de 1956, o modelo terá seu aniversário celebrado exatamente 70 anos depois, neste sábado (5), durante o Encontro Nacional de Romi-Isettas, na sede da Fundação Romi, em Santa Bárbara d’Oeste (SP), cidade onde o veículo era fabricado. A entrada será gratuita.
Além do caráter histórico, chama atenção a quantidade de tecnologias adotadas pelo pequeno automóvel. Entre elas estavam bloco e cabeçote do motor feitos de alumínio, sistema elétrico de 12 V, carroceria monobloco, freios hidráulicos e até alternador, recursos bastante avançados para o mercado brasileiro da segunda metade dos anos 1950.
Um pioneiro que antecipou soluções atuais
A primeira configuração do Romi-Isetta utilizava um motor Iso de dois tempos com 236 cm³ e cerca de 9,6 cv, instalado em posição central. Com apenas 350 kg, o pequeno modelo podia alcançar 85 km/h e, segundo os dados divulgados pela Fundação Romi, chegava a registrar consumo de 25 km/l.
Em 1959 ocorreu uma das principais evoluções do carro, com a chegada do Romi-Isetta 300 de Luxe. O modelo passou a utilizar um motor BMW de quatro tempos com 298 cm³ e aproximadamente 13,2 cv.
Com isso, o Romi-Isetta tornou-se o primeiro automóvel nacional equipado com conjunto de motor e câmbio da BMW. O propulsor também adotava cabeçote de fluxo cruzado, ou cross-flow, além da disposição transversal do motor, solução que posteriormente se tornaria predominante nos automóveis de tração dianteira.
O câmbio já possuía 4 marchas, enquanto boa parte dos automóveis daquele período ainda trabalhava com apenas 3. O sistema elétrico de 12 V também destoava do padrão de 6 V predominante na época.
A lista continuava com alternador no lugar do gerador, limpador de para-brisa elétrico em vez de acionamento a vácuo e freios hidráulicos quando alguns veículos ainda recorriam a sistemas mecânicos por varão. A carroceria monobloco também foi uma novidade entre os automóveis nacionais. Para completar, havia até teto solar de série.
Encontro Nacional de Romi-Isettas acontecerá na Fundação Romi neste sábado (5)
Projeto começou antes dos incentivos à indústria automobilística
A história do modelo brasileiro começou em 1955, quando Américo Emílio Romi e Carlos Chiti conheceram o Iso Isetta, criado na Itália. Duas unidades foram importadas para estudos e avaliações visando sua fabricação no Brasil.
Como a empresa italiana não tinha recursos para participar financeiramente do projeto, a Romi assumiu a operação, obteve a licença de fabricação e passou a pagar royalties equivalentes a 3% sobre cada unidade vendida.
A primeira unidade brasileira deixou a linha de montagem em junho de 1956, já com índice de nacionalização de 72% em peso. O lançamento comercial, contudo, só aconteceria três meses depois, permitindo a formação dos estoques e da rede de vendas e assistência técnica.
Estreia teve desfile pelas ruas de São Paulo
A chegada oficial do Romi-Isetta ao mercado, em 5 de setembro de 1956, foi marcada por um desfile com as primeiras 16 unidades pelas ruas de São Paulo.
A carreata saiu da Rua Marquês de Itu, onde funcionava a primeira concessionária do modelo, e passou por pontos como Largo do Arouche, Praça da República, Avenida São Luís e Avenida Paulista. Os automóveis chegaram a receber uma bênção do cardeal D. Carlos Carmelo Motta e também foram apresentados ao então governador paulista Jânio Quadros.
Ainda naquele dia ocorreu a primeira venda oficial: um exemplar vermelho e creme, de chassi 56001, adquirido pela S.A. Industrial de Óleos Nordeste, de Porto Alegre (RS).
Era barato até para os padrões da época
Apesar do conteúdo tecnológico, o Romi-Isetta também perseguia uma proposta essencialmente popular.
Em novembro de 1960, segundo levantamento divulgado pela Fundação Romi, o modelo custava 370 mil cruzeiros, equivalentes a aproximadamente 38 salários mínimos da época.
Para efeito de comparação, um Willys Dauphine era comercializado por 530 mil cruzeiros, ou 55 salários mínimos, enquanto o Volkswagen Fusca 1200 custava 540 mil cruzeiros, equivalentes a 56 mínimos. O Romi-Isetta, portanto, saía cerca de 30% mais barato que o Fusca.
De Pelé a uma partida de futebol no Pacaembu
Os 70 anos do modelo também são cercados de episódios curiosos.
Graças às dimensões diminutas e à única porta instalada na dianteira, o Romi-Isetta podia ser estacionado perpendicularmente à calçada, permitindo que motorista e passageiro desembarcassem diretamente no passeio.
O carro também inaugurou entre os modelos nacionais a pintura em dois tons. O primeiro exemplar produzido em 1956 era creme e vermelho, enquanto a última unidade, fabricada em 1961, saiu em branco e amarelo.
Até Pelé teve um Romi-Isetta. O jogador ganhou um exemplar após a conquista da Copa do Mundo de 1958 pela Seleção Brasileira.
Também houve aventuras pouco convencionais. Em março de 1958, um casal acompanhado por um papagaio de estimação viajou de São Paulo até Brasília para acompanhar as obras da futura capital federal. E, em 1957, vários Romi-Isetta protagonizaram uma inusitada partida de futebol no estádio do Pacaembu, com os carros sendo usados para empurrar uma bola gigante.
Encontro celebra os 70 anos neste sábado
O Encontro Nacional de Romi-Isettas está marcado para este sábado, 5 de setembro, exatamente sete décadas após o lançamento do modelo.
A programação prevê carreata pelas ruas de Santa Bárbara d’Oeste, exposição de documentos de época, desenhos técnicos e fotografias históricas, além de gincana para proprietários e distribuição de miniaturas fabricadas durante o evento em uma máquina Sopradora Romi. Também haverá praça de alimentação, espaço para crianças e apresentações musicais.
O encontro será realizado das 9h às 15h na Fundação Romi, localizada na Avenida João Ometto, 118, Jardim Panambi, em Santa Bárbara d’Oeste (SP). A entrada é gratuita.
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