Setor automotivo brasileiro aguarda próximos passos do acordo UE-Mercosul
Livre comércio com a Europa prevê redução de tarifas para veículos, autopeças e máquinas; confira primeiros detalhes
César Tizo - janeiro 9, 2026
A aprovação do acordo de livre comércio entre a União Europeia (UE) e o Mercosul, confirmada pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, marca um passo histórico nas relações comerciais entre os dois blocos e reacende discussões relevantes para a indústria automotiva brasileira. O entendimento, negociado ao longo de 25 anos, ainda precisa ser ratificado pelo Parlamento Europeu, mas já provoca repercussões políticas e econômicas no Brasil.
Em manifestação pública, Ursula classificou a decisão do Conselho Europeu como “histórica” e afirmou que o acordo envia “um sinal forte” de compromisso com crescimento econômico, geração de empregos e fortalecimento das parcerias internacionais. Com a aprovação política consolidada, a presidente da Comissão Europeia deve viajar ao Paraguai, que ocupa a presidência rotativa do Mercosul desde dezembro de 2025, para formalizar a assinatura do tratado.
No Brasil, o acordo foi celebrado por lideranças políticas e por entidades ligadas ao comércio exterior. A ApexBrasil estima que a criação de um mercado integrado de cerca de 700 milhões de consumidores, com PIB próximo de US$ 22 trilhões, possa ampliar as exportações brasileiras para a UE em aproximadamente US$ 7 bilhões. Segundo a agência, mais de um terço das vendas brasileiras ao bloco europeu já é composto por produtos da indústria de transformação, o que inclui segmentos estratégicos para o setor automotivo.
Do ponto de vista industrial, o acordo prevê a redução imediata de tarifas para máquinas e equipamentos de transporte, como motores, geradores, componentes automotivos e aeronaves. Também está prevista a eliminação gradual de tarifas sobre diversos produtos industriais e commodities, ainda que em alguns casos sujeita a cotas. Para o setor automotivo, isso pode significar maior integração às cadeias globais, redução de custos de importação de autopeças e ampliação do acesso de produtos brasileiros ao mercado europeu.
Linha de montagem da nova geração do Jeep Compass em Melfi, na Itália
Ao mesmo tempo, a abertura comercial tende a intensificar a concorrência no mercado interno, especialmente em um momento de transformação tecnológica, com avanço dos veículos eletrificados e maior exigência regulatória em termos ambientais. Fabricantes instalados no Brasil acompanham com atenção como serão definidos prazos, regras de origem e salvaguardas, fatores considerados decisivos para medir os efeitos reais do acordo sobre a produção local.
Procurada pelo Guru dos Carros, a Anfavea, entidade que reúne as fabricantes instaladas há mais tempo no Brasil, afirmou que ainda não tem uma posição consolidada sobre o tema, uma vez que “detalhes sobre o setor automotivo ainda não foram totalmente revelados”. A Abeifa, que congrega importadores e algumas marcas com operações de montagem local, também informou ao site um posicionamento semelhante.
Com isso, a avaliação dos impactos dependerá do texto final, especialmente no que diz respeito às condições de acesso ao mercado europeu, aos cronogramas de redução tarifária e às exigências técnicas e ambientais.
Para analistas do setor, o acordo UE-Mercosul tem potencial para atrair investimentos e estimular a modernização da indústria automotiva brasileira, mas também impõe desafios competitivos relevantes. Em um cenário de margens pressionadas e forte concorrência internacional, o equilíbrio entre abertura comercial e políticas de fortalecimento da produção local será determinante para definir se o acordo representará, de fato, um ganho estrutural para o setor automotivo no Brasil.
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