Financiamento pode reduzir em mais de R$ 2 mil por mês os ganhos de motoristas de aplicativo, aponta estudo
Levantamento mostra que profissionais com carro quitado obtêm lucros significativamente maiores; veja números
César Tizo - junho 2, 2026
A compra de um veículo financiado é, para muitos motoristas de aplicativo, o principal caminho para ingressar na atividade. No entanto, um levantamento realizado pela plataforma GigU mostra que essa decisão pode ter um impacto expressivo sobre a rentabilidade do trabalho, reduzindo os ganhos mensais em mais de R$ 2 mil em alguns casos.
De acordo com o estudo, motoristas que atuam com veículos quitados registram lucros por hora significativamente superiores aos daqueles que ainda estão pagando parcelas do automóvel. A diferença varia conforme a região do país, mas pode ultrapassar R$ 10 por hora e chegar perto de R$ 13 em determinados cenários.
No Espírito Santo, por exemplo, o lucro médio de quem possui um carro próprio e quitado alcança R$ 23,35 por hora. Entre os motoristas com veículos financiados, o valor cai para R$ 13,09 por hora. Considerando uma jornada mensal de 200 horas, a diferença chega a R$ 2.052.
No Ceará, a situação é semelhante. O lucro médio por hora é de R$ 18,34 para quem roda com carro quitado e de apenas R$ 9,07 para os financiados. Ao longo de um mês de trabalho, a diferença supera R$ 1.800.
O cenário também aparece nos principais mercados do país. Na região metropolitana de São Paulo, motoristas com veículo próprio registram margem operacional de 58% e lucro de R$ 20,73 por hora. Entre os financiados, a margem recua para 42,7% e o lucro cai para R$ 17,08 por hora.
Em Minas Gerais, o ganho médio passa de R$ 20,64 para R$ 12,36 por hora quando o veículo é financiado. Já no Paraná, o indicador cai de R$ 20,84 para R$ 13,38.
Segundo Luiz Gustavo Neves, CEO e cofundador da GigU, o impacto vai muito além do valor da parcela mensal.
“Mais do que a parcela mensal, o financiamento desencadeia um efeito em cadeia nos custos. Veículos mais novos tendem a exigir seguros mais caros, frequentemente com coberturas amplas exigidas pelas financeiras. O IPVA é mais elevado, e a manutenção, em muitos casos, migra para concessionárias, com preços superiores“, afirma o executivo.
De acordo com a plataforma, os custos totais de operação de um motorista com veículo financiado variam entre R$ 3.800 e R$ 5.100 por mês. Já entre aqueles que possuem automóveis quitados, os gastos ficam entre R$ 1.200 e R$ 2.900 mensais.
A diferença, segundo o levantamento, não está concentrada apenas nas prestações do financiamento, mas em toda a estrutura de custos associada ao veículo, incluindo seguro, impostos e manutenção.
Motociclistas
O estudo mostra que o mesmo fenômeno ocorre entre profissionais que trabalham com motocicletas.
No Ceará, motociclistas que utilizam motos quitadas obtêm lucro médio de R$ 17,33 por hora, enquanto aqueles com veículos financiados registram apenas R$ 8,85 por hora. No Paraná, o ganho cai de R$ 20,93 para R$ 10,64 por hora.
Embora as motocicletas tenham custos operacionais inferiores aos dos automóveis, o peso do financiamento continua sendo um fator relevante para a rentabilidade da atividade.
Decisão estratégica
Para a GigU, os números ajudam a explicar por que muitos motoristas enfrentam dificuldades para elevar a renda líquida mesmo ampliando a jornada de trabalho.
Segundo a plataforma, quando os custos fixos são elevados, o aumento do número de corridas nem sempre se traduz em maior ganho efetivo, já que parte significativa da receita adicional é absorvida pelas despesas operacionais.
O levantamento ressalta que o financiamento continua sendo a principal porta de entrada para milhares de profissionais no setor, mas defende que a decisão seja tomada de forma estratégica.
“Isso não significa que o financiamento deva ser descartado. Para muitos, é a única forma de acesso à atividade. Mas a diferença de desempenho indica que a decisão precisa ser tratada como estratégica, e não apenas como etapa de entrada“, conclui Luiz Gustavo Neves.
Em um mercado cada vez mais competitivo e de margens apertadas, o estudo sugere que o controle dos custos pode ser tão ou mais importante para a rentabilidade do que o volume de corridas realizadas ao longo do mês.
Financiamento continua sendo a principal porta de entrada para milhares de profissionais no setor, mas decisão deve ser tomada de forma estratégica – Imagem: Agência Brasil
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