Aumento da mistura na gasolina, expansão dos híbridos flex e avanço do biometano devem impulsionar demanda pelo biocombustível
César Tizo - junho 5, 2026

O Brasil reúne condições para mais que dobrar sua produção de etanol até 2040, impulsionado por uma combinação de fatores que inclui o aumento da participação do biocombustível na gasolina, o crescimento da frota de veículos híbridos flex e a abertura de novos mercados em setores como navegação, aviação e indústria.
A avaliação foi apresentada pelo presidente da Copersucar, Tomás Manzano, durante participação no podcast Conexão MBCBrasil – A Mobilidade em Pauta, do Instituto MBCBrasil. O debate teve como ponto de partida um estudo elaborado pela consultoria LCA, que aponta um cenário de forte expansão para o etanol brasileiro nas próximas décadas.
Segundo Manzano, o país construiu ao longo de décadas uma cadeia produtiva de biocombustíveis considerada única no mundo pela combinação entre escala, eficiência logística, competitividade econômica e baixa intensidade de carbono.
“O Brasil conseguiu desenvolver uma solução economicamente viável, em escala e com baixa emissão de carbono. Isso cria oportunidades para que outros países ampliem o uso do etanol em suas matrizes energéticas, aumentando também sua segurança energética”, afirmou o executivo.
O tema ganha relevância em um momento em que governos e empresas buscam alternativas para reduzir emissões em segmentos considerados mais difíceis de descarbonizar, especialmente transporte pesado, navegação e processos industriais.
Embora historicamente associado aos automóveis, o etanol começa a assumir um papel mais amplo na transição energética global.
A expansão da produção brasileira não deverá ser sustentada apenas pelo consumo dos veículos leves. Novas aplicações industriais e logísticas despontam como importantes motores de crescimento para o setor.
Entre elas está o uso do etanol como combustível para embarcações marítimas, segmento que responde atualmente por cerca de 3% das emissões globais de gases de efeito estufa.
Segundo Manzano, a adoção parcial do biocombustível pelo setor naval poderia criar uma demanda equivalente à produção brasileira atual.
“A navegação precisa encontrar alternativas viáveis para reduzir suas emissões. Hoje o etanol aparece entre as opções mais competitivas quando se considera custo e intensidade de carbono”, destacou.
A expectativa é que a busca por combustíveis renováveis para navios ganhe força nos próximos anos diante do endurecimento das metas ambientais internacionais e das exigências impostas por organismos reguladores.
Além da navegação, o etanol também vem sendo estudado como matéria-prima para combustíveis sustentáveis de aviação (SAF), segmento considerado estratégico para a redução das emissões do transporte aéreo.

Outro vetor de crescimento está no avanço dos veículos híbridos flex.
O Brasil tornou-se um dos poucos mercados do mundo a combinar eletrificação parcial com o uso de biocombustíveis renováveis. A estratégia vem sendo adotada por diversas montadoras, especialmente Toyota, Fiat, Volkswagen e Renault.
Na prática, a expansão dessa tecnologia tende a elevar o consumo de etanol sem exigir mudanças estruturais na rede de abastecimento já existente.
O cenário se torna ainda mais favorável com o aumento gradual da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina, medida que amplia automaticamente a demanda pelo biocombustível.
Além do etanol, outro combustível renovável ganha espaço nas estratégias do setor sucroenergético: o biometano.
Produzido a partir da biodigestão de resíduos orgânicos da cana-de-açúcar, o combustível pode substituir tanto o diesel utilizado em operações agrícolas quanto o gás natural consumido pela indústria.
Segundo Manzano, a substituição de combustíveis fósseis por biometano dentro da própria cadeia produtiva tem potencial para reduzir significativamente a pegada de carbono dos biocombustíveis brasileiros.
“O biometano descarboniza economizando. Você substitui um combustível fóssil por uma fonte renovável produzida dentro da própria usina”, explicou.
O potencial de crescimento é expressivo. Dados da Associação Brasileira do Biogás (Abiogás) indicam que o Brasil pode atingir uma produção de aproximadamente 120 milhões de metros cúbicos de biometano por dia.
Esse volume corresponde, em termos energéticos, ao consumo diário nacional de diesel ou de gás natural fóssil.
Um exemplo da aplicação prática dessa tecnologia é a BioRota, operação logística da Copersucar baseada no uso de caminhões movidos a biometano.
Segundo a companhia, a iniciativa conta atualmente com mais de 70 veículos pesados abastecidos com o combustível renovável.
Nos dois primeiros anos de operação, a frota substituiu aproximadamente 5 milhões de litros de diesel e evitou a emissão de mais de 8 mil toneladas de dióxido de carbono (CO₂).
Os números reforçam o potencial do biometano como alternativa para segmentos de transporte em que a eletrificação ainda enfrenta desafios técnicos e econômicos.
O avanço do etanol brasileiro também começa a chamar atenção de outros países.
Mercados como Argentina e Índia vêm ampliando seus programas de mistura de etanol à gasolina e estudam mecanismos para incentivar tecnologias bicombustível inspiradas na experiência brasileira.
A principal vantagem apontada pelos especialistas é a possibilidade de reduzir emissões aproveitando a infraestrutura já existente de abastecimento e distribuição de combustíveis líquidos.
Em muitos países emergentes, essa estratégia é vista como uma alternativa mais rápida e economicamente viável do que uma migração integral para veículos elétricos.
“O diferencial brasileiro foi desenvolver uma solução acessível, escalável e compatível com a realidade econômica dos países em desenvolvimento”, afirmou José Eduardo Luzzi, presidente do Instituto MBCBrasil.
Com uma matriz energética já considerada uma das mais limpas do mundo, o Brasil desponta como um dos principais candidatos a assumir protagonismo global no fornecimento de combustíveis renováveis.
A combinação entre etanol, biometano, eletrificação parcial da frota e produção agrícola em larga escala coloca o país em posição privilegiada para atender à crescente demanda mundial por soluções de baixo carbono.
Se as projeções de expansão se confirmarem, a indústria sucroenergética brasileira poderá desempenhar papel ainda mais relevante na transição energética global, transformando o etanol em um dos principais vetores de crescimento econômico e ambiental do país nas próximas décadas.




