Carros elétricos usados perdem quase metade do valor em quatro anos
Levantamento do banco BV mostra que veículos elétricos desvalorizam muito mais do que híbridos e modelos a combustão
César Tizo - junho 6, 2026
Os preços dos automóveis usados voltaram a subir no Brasil em maio, mas um dos dados que mais chamam atenção no mercado automotivo está relacionado à desvalorização dos veículos eletrificados. Segundo levantamento do Índice de Veículos BV (IBV Auto), os carros elétricos usados acumulam perdas de valor significativamente maiores do que modelos híbridos e veículos equipados apenas com motores a combustão.
O indicador, desenvolvido pelo banco BV para acompanhar a evolução dos preços dos automóveis leves usados no país, registrou alta de 0,43% em maio. O resultado representa uma aceleração em relação aos 0,27% observados em abril, embora permaneça abaixo da média dos três meses anteriores, que foi de 0,72%.
No acumulado de 12 meses, os preços dos usados avançaram 6,94%, refletindo um mercado ainda aquecido, embora com sinais de maior equilíbrio entre oferta e demanda.
Segundo Roberto Padovani, economista-chefe do banco BV, o comportamento dos preços está dentro do esperado para o atual cenário econômico.
“O número mostra que o mercado não perdeu o ritmo. Esse comportamento é compatível com um ambiente no qual o consumo segue resiliente, mas começa a responder de forma mais sensível às condições financeiras, alternando meses de maior e menor demanda”, afirma.
Elétricos lideram perdas de valor
O levantamento mostra uma diferença expressiva entre a desvalorização dos veículos elétricos e a dos modelos equipados com motores convencionais.
Entre os automóveis lançados em 2023, os elétricos acumulam perda média de 45,6% até maio de 2026. No mesmo período, os híbridos registraram desvalorização de 25,2%, enquanto os veículos a combustão perderam apenas 20% do valor.
A diferença se torna ainda mais evidente entre os modelos de 2022. Nesse grupo, os elétricos acumulam queda de 49,3% no valor de mercado, praticamente metade do preço original. Já os automóveis equivalentes movidos a combustão registram desvalorização de 13,4%.
Segundo o banco BV, a forte perda de valor dos elétricos está relacionada principalmente às sucessivas reduções de preços dos veículos novos e às estratégias comerciais agressivas adotadas pelas fabricantes para ampliar a participação desse tipo de produto no mercado brasileiro.
Com a chegada de novos concorrentes, especialmente marcas chinesas, e a intensificação da disputa por preços, os veículos novos ficaram mais baratos, pressionando diretamente as cotações dos seminovos e usados.
Kwid, HR-V e Gol puxam alta dos usados
Entre os modelos que mais contribuíram para a valorização do mercado em maio, o destaque ficou para o Renault Kwid, que registrou alta de 4,58%.
Na sequência aparecem o Honda HR-V, com valorização de 1,85%, e o Volkswagen Gol, que avançou 1,60%.
Por outro lado, alguns dos veículos mais negociados do país apresentaram recuo nos preços.
O Chevrolet Onix, que havia liderado a valorização do índice nos últimos três meses, registrou queda de 0,36%.
A maior retração do período foi observada no Chevrolet Onix Plus, que recuou 1,39%. Também apresentaram desvalorização o Fiat Mobi (-1,14%) e o Fiat Uno (-1,12%).
Para Jamil Ganan, vice-presidente de Varejo do banco BV, o resultado indica um mercado mais seletivo.
“O resultado de maio do IBV Auto sugere uma dinâmica mais equilibrada na formação dos preços, apontando para um mercado sustentado por uma demanda ainda relevante, mas com sinais de acomodação e maior seletividade”, avalia.
Renault Kwid: valorização de 4,58% em maio
Centro-Oeste lidera valorização regional
A análise regional mostra comportamentos distintos entre os estados brasileiros.
O Centro-Oeste apresentou o maior avanço de preços em maio, com valorização média de 0,99%.
O destaque ficou para Mato Grosso do Sul, que registrou a maior alta do país no período, com crescimento de 1,19%.
Na direção oposta, a região Norte apresentou recuo médio de 0,23%, devolvendo parte da forte valorização observada em abril.
Entre os estados com maiores quedas aparecem Amapá e Tocantins, ambos com retração de 0,41%.
No acumulado dos últimos 12 meses, os maiores aumentos de preços foram registrados no Rio de Janeiro (7,84%), Paraná (7,42%) e Minas Gerais (7,29%).
Já Espírito Santo (4,91%), Mato Grosso (5,05%) e Santa Catarina (5,27%) apresentaram as menores variações no período.
Mercado segue resiliente
Os dados do IBV Auto indicam que o mercado brasileiro de veículos usados continua sustentado por uma demanda consistente, mesmo diante de juros ainda elevados e de um cenário econômico mais desafiador.
Ao mesmo tempo, a pesquisa reforça um fenômeno cada vez mais evidente no setor automotivo: enquanto os carros elétricos ganham espaço nas vendas de veículos novos, sua capacidade de retenção de valor ainda permanece significativamente inferior à observada nos modelos híbridos e, principalmente, nos veículos equipados com motores a combustão.
O cenário sugere que a rápida evolução tecnológica, a redução dos preços dos modelos novos e o aumento da concorrência continuarão exercendo forte influência sobre o comportamento dos elétricos no mercado de usados nos próximos anos.
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