Governo reabre incentivos a elétricos desmontados e Anfavea reage com alerta de “grande preocupação”
Decisão de restabelecer incentivos para kits importados de veículos elétricos é vista pela indústria nacional como ameaça a investimentos
César Tizo - junho 23, 2026
A 238ª Reunião Ordinária do Comitê-Executivo de Gestão (Gecex), realizada nesta terça-feira (23), trouxe decisões que agitaram o setor automotivo brasileiro e provocaram uma reação imediata e contundente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). Em nota oficial divulgada à imprensa nesta noite, a entidade lamentou o que classificou como um retrocesso na política industrial de eletromobilidade do país.
Novo cronograma
O ponto central da reunião do Gecex foi a deliberação sobre o Regime de Autopeças Não Produzidas. O comitê propôs a inclusão de prazos de vigência para os “Ex-tarifários” (reduções tarifárias) atualmente em vigor para componentes sem produção nacional. Segundo o cronograma aprovado, as isenções concedidas até 2021 expirarão em dezembro de 2026, enquanto as mais recentes, concedidas até agosto de 2025, terão validade até setembro de 2027.
Kits importados
A maior crítica da Anfavea, no entanto, recai sobre a decisão do Gecex de restabelecer incentivos à importação de veículos elétricos desmontados e semidesmontados (CKD e SKD). A associação afirma que as cotas para esses kits haviam se encerrado em fevereiro de 2026, conforme pactuado anteriormente com o governo após longo debate.
Para a Anfavea, essa mudança “intempestiva” e realizada sem consulta ao setor produtivo beneficia a importação em detrimento da produção local. A entidade argumenta que prolongar benefícios temporários reduz os estímulos para que novas marcas evoluam da simples montagem de kits para uma integração produtiva real com fornecedores brasileiros.
Riscos aos investimentos e empregos
A indústria automotiva nacional alega que a quebra de confiança nas regras estabelecidas coloca em xeque os R$ 140 bilhões em investimentos anunciados até 2033. Esses recursos são destinados à eletrificação, descarbonização e ampliação da cadeia de suprimentos no Brasil.
Perda de R$ 96,8 bilhões em vendas para o setor de autopeças.
Eliminação de cerca de 68 mil empregos diretos e 191 mil em toda a cadeia produtiva.
Redução de R$ 24,3 bilhões na arrecadação federal.
Modelo de Desenvolvimento
Enquanto o governo avança com prazos para o fim das isenções de autopeças isoladas, a Anfavea sustenta que o verdadeiro desafio não é mais acelerar a entrada de elétricos — cujos emplacamentos de importados cresceram 214% entre 2023 e 2025 — mas garantir que essa transição ocorra com conteúdo nacional. “O que está em debate é qual modelo de desenvolvimento o país pretende incentivar para a nova mobilidade e qual espaço será reservado à produção nacional“, conclui a nota da associação.
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