Para fabricantes, gasolina E32 ainda carece de validação técnica
Anfavea e Abeifa defendem novos estudos antes da eventual adoção definitiva da mistura de 32% de etanol anidro na gasolina
César Tizo - julho 21, 2026
A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) manifestou-se contrária à adoção da gasolina E32 sem a realização de novos estudos específicos sobre os impactos da medida na frota brasileira. Em nota a qual o Guru dos Carros teve acesso, a entidade afirma apoiar o uso de biocombustíveis como estratégia para descarbonizar a mobilidade, mas sustenta que a elevação da mistura obrigatória de etanol anidro para 32% deveria ter sido precedida por uma validação técnica específica.
Segundo a Anfavea, os ensaios realizados para embasar a adoção da gasolina E30 não tiveram como objetivo comprovar a segurança e a compatibilidade da gasolina E32 como mistura obrigatória. A entidade argumenta que os testes avaliaram desempenho e dirigibilidade considerando apenas a margem de tolerância da especificação do combustível, sem abranger aspectos como durabilidade de componentes, emissões, autonomia e validação da frota em longo prazo.
Outro ponto levantado pela associação diz respeito à própria especificação do combustível. Com a adoção da gasolina E32, a tolerância regulamentar permitirá misturas com até 34% de etanol anidro, percentual que, segundo a entidade, também não foi submetido a validação técnica específica.
Na avaliação da Anfavea, a adoção da nova mistura deveria ter sido precedida por estudos adicionais capazes de comprovar sua compatibilidade com a frota em circulação e assegurar a segurança técnica e a proteção do consumidor.
A posição da Anfavea encontra respaldo na Associação Brasileira das Empresas Importadoras e Fabricantes de Veículos Automotores (Abeifa). Consultada pelo Guru dos Carros, a entidade informou que acompanha com atenção a decisão sobre a elevação da mistura obrigatória de etanol na gasolina e defendeu que iniciativas dessa natureza sejam fundamentadas em validações técnicas que contemplem toda a diversidade da frota brasileira.
A Abeifa ressaltou que apoia a evolução dos biocombustíveis como instrumento de descarbonização, mas afirmou que a segurança, a confiabilidade das tecnologias em circulação e os interesses do consumidor devem permanecer como prioridades. A entidade também colocou sua equipe técnica à disposição para contribuir com o diálogo técnico sobre o tema junto às autoridades competentes.
Estudo
Apesar das manifestações das entidades do setor, os posicionamentos contrastam parcialmente com as conclusões do estudo “Avaliação da utilização de percentual de 30% de etanol anidro na gasolina em veículos leves e motocicletas” conduzido pelo Instituto Mauá de Tecnologia (IMT) e utilizado pelo governo federal durante as discussões sobre o aumento da mistura obrigatória de etanol.
O levantamento teve como objetivo principal avaliar os impactos da gasolina E30, mas também incluiu testes de desempenho e dirigibilidade utilizando combustível com 32% de etanol para representar o limite superior da faixa de tolerância da especificação.
O programa de testes avaliou 16 automóveis e 13 motocicletas representativos da frota brasileira, abrangendo diferentes gerações tecnológicas, sistemas de alimentação e tipos de motorização. Foram realizados ensaios de partida a frio, dirigibilidade, desempenho, emissões e consumo de combustível.
Segundo o relatório, não foram identificados impactos relevantes no funcionamento dos veículos abastecidos com misturas de maior teor de etanol. Os sistemas eletrônicos de gerenciamento dos motores se adaptaram normalmente ao combustível durante os testes, sem diferenças significativas em partidas a frio, aceleração, retomadas ou comportamento ao volante.
Convergências e divergências entre o estudo e a nota da Anfavea
Ponto
Estudo do IMT
Nota da Anfavea
Testes de durabilidade
Não realizados, por decisão prévia do grupo técnico
Cobra seu não cumprimento como lacuna que impede validar o E32
Testes de emissões e autonomia
Realizados apenas com E30, não com E32
Aponta que não houve validação dessas variáveis para o E32
Testes de desempenho/dirigibilidade com E32
Realizados, sem impactos relevantes identificados
Reconhece que houve testes de desempenho, mas dentro da margem de tolerância, não como mistura obrigatória
Validação da faixa de até 34% (nova tolerância do E32)
Não abordada no estudo, que testou até 32%
Considera não validada tecnicamente
Apoio aos biocombustíveis
Não é objeto de manifestação. Estudo é técnico
Reafirmado explicitamente na nota
Elaboração: Guru dos Carros com base em fontes oficiais
Por outro lado, o próprio Instituto Mauá deixa claro que o estudo não teve como objetivo avaliar a durabilidade dos componentes dos veículos. O relatório informa que houve consenso no grupo de acompanhamento coordenado pelo Ministério de Minas e Energia (MME) de que esse tipo de ensaio seria realizado apenas em uma futura etapa de avaliação de misturas iguais ou superiores a 35% de etanol.
Esse ponto acaba reforçando um dos principais argumentos apresentados por Anfavea e Abeifa. Embora os testes não tenham identificado prejuízos relevantes ao desempenho e ao funcionamento dos veículos avaliados, as entidades defendem que ainda faltam estudos específicos sobre durabilidade e compatibilidade da frota antes da adoção obrigatória da gasolina E32.
O debate ocorre após a decisão do governo federal de elevar temporariamente de 30% para 32% a mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina. Segundo o Executivo, a iniciativa busca ampliar o uso de biocombustíveis, reduzir as emissões de gases de efeito estufa e diminuir a dependência de combustíveis fósseis, sobretudo diante das incertezas provocadas pela guerra no Oriente Médio. A nova mistura terá validade inicial de 180 dias, com possibilidade de prorrogação.
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