Move Brasil eleva teto para R$ 200 mil e passa a aceitar híbridos a gasolina
Programa para taxistas e motoristas de aplicativo passa a financiar automóveis de até R$ 200 mil e amplia híbridos elegíveis
César Tizo - agosto 20, 2026
O governo federal decidiu ampliar o alcance do Move Brasil para tentar acelerar a renovação dos veículos utilizados por taxistas e motoristas de aplicativo. Uma nova regulamentação elevou de R$ 150 mil para R$ 200 mil o valor máximo dos automóveis que podem ser adquiridos por meio da linha de crédito e abriu espaço para uma oferta maior de modelos híbridos.
A mudança foi estabelecida pela Portaria Interministerial MDIC/MF nº 188, de 18 de agosto de 2026, publicada em edição extra do Diário Oficial da União na última quarta-feira (19).
O novo teto considera o valor do automóvel registrado na nota fiscal. Na prática, a alteração acrescenta R$ 50 mil à faixa de preço aceita pelo programa e permite que modelos de segmentos superiores passem a se enquadrar nas regras, desde que também cumpram os demais requisitos estabelecidos pelo governo.
A medida chega em um momento no qual o Move Brasil ainda utiliza apenas uma pequena parcela dos R$ 30 bilhões colocados à disposição para financiar a renovação da frota.
Híbridos ganham mais espaço
Além de ampliar o limite de preço, a Portaria nº 188 altera a definição dos veículos híbridos que podem participar do programa.
Até então, o Move Brasil aceitava apenas híbridos flex, além de elétricos, automóveis térmicos bicombustíveis e veículos exclusivamente a etanol. Com a nova regulamentação, passam a ser considerados elegíveis também os híbridos com motor a combustão apenas a gasolina, antes excluídos da iniciativa.
As mudanças são importantes diante da expansão recente da oferta de modelos eletrificados no mercado brasileiro. Com o teto anterior de R$ 150 mil e a restrição aos híbridos flex, boa parte dos híbridos disponíveis no país permanecia automaticamente fora do programa.
Agora, com o limite de R$ 200 mil e a inclusão dos híbridos a gasolina, aumenta consideravelmente o universo de automóveis potencialmente elegíveis.
Isso não significa, entretanto, que qualquer carro híbrido abaixo de R$ 200 mil possa automaticamente ser adquirido pelo Move Brasil. O veículo precisa constar na relação oficial de bens financiáveis e atender aos critérios de sustentabilidade do programa, além de ser oferecido por fabricante habilitada na iniciativa.
A atualização da lista oficial de modelos será, portanto, fundamental para mostrar quais novos automóveis efetivamente poderão ser financiados com a mudança.
Medida pode favorecer categorias superiores dos aplicativos
A ampliação do teto também permite ao Move Brasil alcançar uma parcela maior do mercado utilizado por motoristas profissionais.
Com o limite anterior, a linha estava concentrada principalmente em carros compactos e alguns SUVs de entrada. A nova faixa de até R$ 200 mil abre espaço para sedãs, SUVs e modelos eletrificados de maior porte, que podem ser utilizados também em categorias superiores das plataformas, como Uber Comfort, Uber Black e 99Plus.
A expectativa dentro do governo é que as novas regras ampliem de aproximadamente 63% para 88% a cobertura do mercado potencial de veículos adequados ao programa.
A mudança também ocorre em um cenário no qual a eletrificação já avança entre os profissionais que trabalham com transporte por aplicativo.
Dados da plataforma Machine mostram que híbridos e elétricos já representam 41,4% das corridas analisadas pela empresa. Entre os elétricos, BYD Dolphin Mini e Dolphin aparecem como os modelos de maior presença.
No caso dos veículos exclusivamente a combustão, Volkswagen Polo, Chevrolet Onix, Hyundai HB20, Fiat Argo e Renault Kwid figuram entre os mais utilizados.
A escolha desses automóveis está diretamente relacionada a fatores como consumo, manutenção e custo operacional, aspectos que assumem peso ainda maior para quem utiliza o veículo como ferramenta de trabalho.
Adesão abaixo das expectativas
A ampliação das regras também busca atacar um dos principais problemas enfrentados pelo Move Brasil desde sua implementação: a adesão abaixo das expectativas iniciais.
O programa dispõe de R$ 30 bilhões para financiar a compra de veículos por motoristas de aplicativo, taxistas e cooperativas.
O balanço mais recente disponível aponta, entretanto, cerca de R$ 3,44 bilhões em empréstimos, equivalentes a pouco mais de 11% do total reservado.
As operações beneficiaram aproximadamente 33,4 mil profissionais, sendo cerca de 27 mil motoristas de aplicativo e 6 mil taxistas.
O ritmo representa uma evolução em relação ao observado no fim de julho. Até o dia 30 daquele mês, cerca de R$ 2,2 bilhões haviam sido movimentados, correspondentes a 7,3% dos recursos previstos.
Apesar do crescimento, ainda existe uma distância considerável entre o volume de crédito disponível e aquele efetivamente contratado.
Bancos ainda fazem análise de crédito
O programa permite financiar até 100% do valor do automóvel e não estabelece obrigatoriedade de entrada. Isso, porém, não impede que a instituição financeira exija uma parcela inicial de acordo com sua própria política de crédito.
A aprovação do cadastro no Move Brasil também não significa aprovação automática do financiamento.
O pedido continua sujeito à análise da instituição financeira responsável pela operação, um dos pontos que têm provocado reclamações entre profissionais interessados no programa.
O governo vem discutindo maneiras de reduzir dificuldades de acesso ao crédito e aumentar a participação dos bancos privados.
Atualmente, as taxas máximas previstas são de 12,6% ao ano para homens e 11,5% ao ano para mulheres.
O prazo pode chegar a 72 meses, incluindo carência de até seis meses.
Para os motoristas de aplicativo, é necessário manter cadastro ativo há pelo menos 12 meses e comprovar ao menos 100 corridas nesse período na mesma plataforma. Taxistas também precisam estar devidamente registrados e em atividade.
Programa tem prazo apertado
Outro ponto importante é o calendário.
As operações do Move Motoristas estão amparadas pela Medida Provisória nº 1.359/2026, cuja vigência está prevista até 15 de setembro.
Isso deixa uma janela relativamente curta para que a ampliação do teto de R$ 200 mil e a inclusão de mais configurações híbridas consigam produzir impacto significativo sobre o volume de financiamentos.
Eletrificação pode ganhar novo impulso entre motoristas
Para quem trabalha diariamente com o automóvel, a escolha de um veículo eletrificado pode ter implicações diferentes das observadas entre consumidores particulares.
Consumo de combustível, recarga, manutenção, custo por quilômetro e períodos de imobilização afetam diretamente a rentabilidade da atividade.
Nesse contexto, a elevação do teto para R$ 200 mil pode tornar o Move Brasil mais relevante para a transição tecnológica da frota utilizada pelos aplicativos, principalmente ao ampliar o acesso a híbridos que anteriormente ficavam acima do limite permitido.
O desafio, porém, permanece o mesmo: transformar os R$ 30 bilhões disponibilizados pelo governo em crédito efetivamente acessível aos profissionais.
A nova Portaria amplia significativamente o leque potencial de veículos. Se isso será suficiente para acelerar a contratação dos financiamentos dependerá agora da atualização da relação de modelos elegíveis e, principalmente, da capacidade dos motoristas de obter aprovação de crédito junto às instituições financeiras.
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