Descontos agressivos no carro zero comprimem margens e aceleram transformação no mercado de usados
Setor de usados enfrenta pressão inédita em 2026 com queda no valor dos estoques, juros elevados e avanço das montadoras
César Tizo - maio 7, 2026
O mercado brasileiro de veículos seminovos e usados atravessa em 2026 um dos períodos mais desafiadores dos últimos anos. A combinação entre descontos agressivos no segmento de veículos zero-quilômetro, custo elevado do capital e aumento da inadimplência vem comprimindo severamente as margens de lucro das revendas, obrigando o setor a acelerar sua profissionalização e adoção de ferramentas tecnológicas.
O tema ganhou destaque durante o “Sindiauto/Alvesp 3º Summit Automotive 2026”, evento em que lideranças do setor defenderam que a sobrevivência das lojas depende cada vez mais do uso de inteligência de dados e sistemas de gestão capazes de acompanhar as rápidas oscilações do mercado.
Segundo Geraldo Victorazzo, vice-presidente Comercial e de Marketing da Auto Avaliar, a dinâmica atual tornou inviável a administração baseada apenas na experiência prática ou no chamado “feeling”.
“O feeling continua tendo sua importância, claro, mas hoje a cereja do bolo é o dado, principal fator de decisão”, afirmou o executivo durante a apresentação.
A pressão sobre as margens ganhou força principalmente após a intensificação da disputa comercial entre montadoras tradicionais e novas marcas chinesas, que passaram a oferecer descontos de até 25% e bônus de troca superiores a R$ 20 mil para impulsionar as vendas de veículos novos.
Na prática, essa estratégia afeta diretamente o valor de revenda dos seminovos estocados nas lojas.
Victorazzo exemplificou o cenário utilizando a picape Fiat Titano. Segundo ele, versões do modelo avaliadas em cerca de R$ 250 mil podem ser encontradas por aproximadamente R$ 219 mil em vendas para CNPJ. Dessa forma, uma unidade seminova anunciada por R$ 200 mil perde competitividade diante da pequena diferença de preço em relação ao zero-quilômetro, especialmente considerando garantia de fábrica e condições comerciais mais atrativas.
Com isso, o lojista é frequentemente obrigado a reduzir o preço do usado para conseguir concretizar a venda, sacrificando a rentabilidade da operação.
O problema torna-se ainda mais crítico em um cenário de crédito restritivo e inadimplência elevada. De acordo com os dados apresentados durante o Summit, a inadimplência da pessoa física gira em torno de 6%, aumentando o risco financeiro das operações.
Ao mesmo tempo, o mercado segue aquecido em volume. O segmento registrou crescimento de aproximadamente 20% no primeiro trimestre de 2026, porém sob condições consideradas muito mais complexas para formação de estoque e precificação.
Outro fator apontado como desafio é a crescente complexidade do mercado automotivo nacional. Hoje, o Brasil conta com mais de 50 marcas e cerca de 300 variações de modelos, cenário que dificulta análises manuais e decisões intuitivas.
“É humanamente impossível tomar decisão de cabeça, com o feeling, com mais de 300 variações de modelos no mercado”, destacou Victorazzo.
Número cada vez maior de marcas e modelos demanda gestão profissionalizada
Para Alcides Parmejano Jr., diretor executivo do Sindiauto/Alvesp, a tecnologia tornou-se elemento central para o controle financeiro e operacional das lojas.
“Nós precisamos de tecnologia para gerenciar o nosso estoque, para gerenciar as nossas vendas e para ter o controle do nosso negócio”, afirmou o executivo.
Marcelo Cruz, presidente do Sindiauto/Alvesp, reforçou que o empresário que não acompanhar a transformação digital tende a perder competitividade rapidamente.
“O lojista hoje tem que ter informação, conhecimento e tecnologia; sem isso, ele está fora do mercado”, declarou.
Segundo os participantes do evento, a adoção de soluções baseadas em inteligência artificial já se tornou acessível também para pequenas e médias lojas. Essas plataformas permitem monitorar em tempo real as oscilações nos preços dos veículos zero-quilômetro e ajudam a evitar perdas provocadas por desvalorizações repentinas causadas por promoções de fábrica.
O consenso entre os especialistas presentes no Summit Automotive 2026 é de que o mercado de seminovos vive uma mudança estrutural. A antiga gestão baseada exclusivamente na experiência prática do lojista perde espaço para operações sustentadas por análise de dados, monitoramento de mercado e decisões mais rápidas sobre compra, precificação e giro de estoque.
Nesse novo cenário, tecnologia deixa de ser diferencial competitivo e passa a representar um requisito básico para preservar rentabilidade em um setor cada vez mais pressionado pela agressividade comercial das montadoras.
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