Debate sobre fim da escala 6×1 resgata decisão centenária da Ford
Modelo adotado pela montadora em 1926 ajudou a consolidar a jornada de cinco dias de trabalho e volta ao centro do debate
César Tizo - maio 13, 2026
A Ford alcança neste mês um marco histórico nas relações de trabalho. Em maio de 1926, há exatos 100 anos, a montadora norte-americana adotou voluntariamente a jornada semanal de 40 horas em suas fábricas nos Estados Unidos, ajudando a consolidar o modelo de cinco dias de trabalho com dois de descanso, padrão que permanece amplamente utilizado até hoje.
Na época, os funcionários da fabricante trabalhavam seis dias por semana, seguindo uma realidade comum da indústria americana do início do século XX, quando jornadas de até 60 horas semanais eram frequentes. A decisão da Ford foi vista tanto como resposta à pressão crescente dos trabalhadores por mais tempo livre quanto como estratégia empresarial para aumentar produtividade, atrair mão de obra qualificada e estimular o consumo por meio do lazer.
O modelo de produção da montadora foi tão influente que acabou dando origem ao chamado “fordismo”, sistema industrial baseado em produção em massa, padronização e ganhos de eficiência.
A consolidação oficial da jornada de 40 horas nos Estados Unidos ocorreria anos depois. Em 1940, o país alterou a Lei de Normas Justas de Trabalho (Fair Labor Standards Act), criada em 1938, estabelecendo o limite semanal de 40 horas e prevendo pagamento adicional de 50% para horas extras.
Historiadores apontam, porém, que a mudança não ocorreu apenas por iniciativa empresarial. O professor Antonio Luigi Negro, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), destacou em entrevista para a Agência Brasil que sindicatos e movimentos operários tiveram papel decisivo na pressão pela redução da jornada.
Com o lema “oito horas para o trabalho, oito horas para o descanso e oito horas para o que quisermos”, trabalhadores americanos reivindicaram durante décadas melhores condições de vida e menos desgaste físico.
Linha de produção do Ford Model T
Segundo estudos do economista e historiador norte-americano Robert M. Whaples, a luta pela redução da jornada foi uma das principais pautas do sindicalismo nos Estados Unidos entre o fim do século XIX e o início do século XX. O avanço das organizações trabalhistas ampliou a pressão sobre empresas e governos.
A decisão da Ford acelerou esse movimento. Dados históricos apontam que, em 1927, mais de 260 grandes empresas americanas já haviam adotado a semana de cinco dias, contra apenas 32 em 1920.
O tema volta ao centro do debate agora também no Brasil. O governo federal e lideranças da Câmara dos Deputados articulam propostas para extinguir a escala 6×1, atualmente comum em diversos setores da economia, além de reduzir a jornada semanal das atuais 44 horas para 40 horas sem redução salarial.
A proposta tramita na Câmara por meio de uma PEC que deverá ser analisada por comissão especial ainda neste mês.
Atualmente, segundo dados do Departamento de Estatísticas do Trabalho dos Estados Unidos, a jornada média semanal no país ficou em 34,3 horas em abril de 2026, variando conforme o setor econômico. Enquanto atividades ligadas à mineração e exploração madeireira registram médias superiores a 45 horas semanais, segmentos como lazer e hotelaria operam com cargas próximas de 25 horas semanais.
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