Sem reação das rivais, marcas chinesas podem alcançar 40% do mercado brasileiro
Bright Consulting estima participação de 30% em cenário conservador, mas fatia pode avançar ainda mais
César Tizo - junho 25, 2026
As montadoras chinesas poderão responder por até 30% das vendas de veículos leves no Brasil até o fim da década, segundo projeções da Bright Consulting. Em um cenário mais agressivo, essa participação poderá alcançar 40% do mercado nacional até 2030 caso as fabricantes tradicionais não acelerem seus investimentos em eletrificação, desenvolvimento tecnológico e renovação de produtos nos próximos dois anos.
A avaliação foi apresentada por Murilo Briganti, COO da Bright Consulting, durante palestra realizada na Future Mobility, evento que acontece no Distrito Anhembi, em São Paulo.
Segundo o executivo, a indústria automotiva global atravessa uma transformação estrutural impulsionada pela digitalização dos veículos, pela transição energética e pela velocidade de desenvolvimento alcançada pelas fabricantes chinesas.
“O automóvel deixa de ser apenas um hardware e passa a ser uma plataforma de software, capaz de evoluir continuamente por meio de atualizações e novos serviços. Essa mudança altera completamente a dinâmica de desenvolvimento dos veículos e o modelo de negócios da indústria“, afirmou Briganti.
De acordo com o executivo, a vantagem competitiva das marcas chinesas vai muito além da eletrificação. Um dos diferenciais está na rapidez com que essas empresas conseguem desenvolver e atualizar seus produtos.
Enquanto montadoras tradicionais levam entre 36 e 48 meses para promover atualizações significativas em um veículo, fabricantes chinesas conseguem reduzir esse ciclo para cerca de 16 a 18 meses, adaptando seus produtos com mais agilidade às demandas dos consumidores.
Outro fator que favorece a expansão dessas empresas é o potencial do mercado sul-americano. Segundo Briganti, o Brasil, somado aos principais mercados da região, representa uma demanda superior a quatro milhões de veículos por ano, tornando-se um destino estratégico para absorver parte da capacidade produtiva excedente da indústria chinesa.
Carro popular desapareceu
Durante sua apresentação, Briganti também analisou as mudanças ocorridas no mercado brasileiro na última década. Segundo ele, o chamado carro popular praticamente deixou de existir, resultado da incorporação crescente de tecnologias, do aumento das exigências regulatórias relacionadas à segurança, eficiência energética e emissões e do avanço da eletrificação.
“O consumidor percebe o aumento do preço, mas muitas vezes não percebe que o veículo passou a incorporar muito mais tecnologia do que há 10 ou 15 anos“, explicou.
Itens antes restritos a segmentos superiores, como transmissões automáticas, conectividade avançada e sistemas de assistência à condução (ADAS), passaram a equipar também modelos de entrada, contribuindo para a elevação dos preços médios dos automóveis.
Carros “populares” estão desaparecendo do mercado por conta do aumento de exigências regulatórias relacionadas à segurança e eficiência
Concorrência e preços para baixo
Apesar da forte valorização dos veículos observada nos últimos anos, a expectativa da consultoria é de que o mercado entre em uma nova fase marcada por maior competição.
Segundo Briganti, a chegada de novas montadoras ao País e o aumento da oferta de produtos devem pressionar os preços e ampliar o conteúdo tecnológico oferecido ao consumidor.
“O preço do carro já deixou de aumentar e a tendência é começar a cair à medida que novas marcas entram no mercado e ampliam a concorrência“, projetou.
Concorrência deve ajudar a reduzir preços; EX5 EM-i, por exemplo, trouxe relação custo-benefício competitiva ao segmento de SUVs híbridos plug-in
Brasil e a transição energética
Embora reconheça o avanço acelerado da eletrificação, o executivo avalia que o Brasil deverá seguir uma trajetória distinta da observada em mercados como China e Europa.
Na visão da Bright Consulting, a mobilidade brasileira será caracterizada pela convivência de diferentes tecnologias, incluindo motores flex, micro-híbridos (MHEV), híbridos convencionais (HEV), híbridos plug-in (PHEV) e veículos totalmente elétricos.
Nesse cenário, o etanol continuará desempenhando papel relevante na redução das emissões e poderá se consolidar como uma importante vantagem competitiva para o País durante o processo de descarbonização.
“O Brasil não precisa copiar o caminho seguido pela Europa ou pela China. Nossa vantagem competitiva está justamente na possibilidade de construir uma transição energética compatível com a nossa realidade. Se soubermos combinar eletrificação, etanol e inovação industrial, podemos influenciar os rumos da indústria automotiva“, concluiu Briganti.
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