Move Brasil pode esbarrar no crédito restrito e frustrar expectativa do setor, avalia especialista
Dificuldade de aprovação de financiamento e risco de inadimplência ainda ameaçam o alcance do programa federal
César Tizo - maio 27, 2026
O programa Move Brasil, lançado pelo Governo Federal para estimular a renovação da frota nacional e ampliar o acesso ao financiamento de veículos, representa um avanço importante para a cadeia automotiva, mas ainda enfrenta obstáculos relevantes para atingir o potencial prometido. A avaliação é de Fabio Braga, country manager da Megadealer.
Segundo o executivo, a iniciativa parte de um diagnóstico correto ao considerar o envelhecimento da frota brasileira, a dependência de milhões de motoristas de aplicativo do automóvel como ferramenta de trabalho e a necessidade de estímulos para a indústria automotiva. Com R$ 30 bilhões disponibilizados, o programa oferece taxas de financiamento em torno de 12,6% ao ano, patamar significativamente inferior ao do crédito tradicional, que atualmente pode superar 30% ao ano.
Apesar disso, Braga ressalta que a redução dos juros, isoladamente, não resolve o principal gargalo do setor: o acesso efetivo ao crédito. De acordo com ele, os bancos devem manter critérios tradicionais de análise financeira, o que tende a limitar a aprovação de financiamentos para motoristas de aplicativo e consumidores com renda variável, informalidade ou restrições no CPF.
Na avaliação do especialista, o cenário pode provocar aumento do fluxo de clientes nas concessionárias, mas sem a conversão esperada em contratos efetivamente aprovados. “O programa pode gerar muito interesse nas concessionárias, mas uma conversão menor do que o esperado em contratos efetivos”, destaca.
O impacto inicial do Move Brasil deve beneficiar principalmente veículos novos de até R$ 150 mil ligados às montadoras habilitadas no programa. Em contrapartida, o mercado de seminovos e usados, hoje bastante procurado por esse público, ficou fora da primeira etapa da iniciativa e pode sofrer desaceleração no médio prazo.
Fabio Braga aponta ainda que os efeitos tendem a ocorrer de forma desigual dentro da cadeia automotiva. Montadoras, sobretudo nos segmentos de veículos flex, híbridos e elétricos elegíveis, devem colher os primeiros resultados positivos. Já concessionárias devem observar crescimento do movimento nas lojas, ainda que limitado pelas aprovações de crédito. Bancos e financeiras, por sua vez, podem registrar grande volume de análises, mas acompanhado de índices modestos de aprovação.
Outro ponto de preocupação envolve a inadimplência. O setor automotivo já enfrenta os maiores índices de atraso desde 2013, enquanto o Move Brasil prevê financiamentos de até 72 meses e carência de seis meses para início dos pagamentos.
Segundo Braga, essa combinação amplia os riscos para instituições financeiras. Embora o veículo funcione como garantia, o processo de retomada de automóveis inadimplentes no Brasil ainda é considerado lento e oneroso. Somado ao alto comprometimento da renda das famílias e ao custo do crédito ainda elevado, o ambiente permanece desafiador.
Para o executivo da Megadealer, o programa possui mérito e pode ajudar a movimentar parte importante da indústria automotiva, mas existe uma contradição central ao tentar incluir justamente um público historicamente evitado pelo sistema financeiro tradicional sem mecanismos robustos de garantia.
Entre as sugestões apontadas para ampliar a efetividade da iniciativa estão a criação de um fundo garantidor específico, critérios mais adequados para análise de renda variável e maior transparência nos índices reais de aprovação de crédito.
Na visão de Fabio Braga, o sucesso do Move Brasil não será medido pelo volume anunciado de recursos, mas pela quantidade de contratos efetivamente fechados e pela capacidade de manter a operação sustentável ao longo do tempo.
Move Brasil pode aumentar o fluxo de clientes nas concessionárias, mas sem a conversão esperada
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